O Festival de Cinema de Vitória lançou o #FCVemCasa para você poder ver ou rever os filmes que fizeram parte da edição passada do Festival. Pensamos em você que está em casa isolado socialmente em face à pandemia da Covid-19 no Brasil e no exterior. 

Os filmes selecionados para a 23ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas são um recorte da safra de curtas produzida entre 2018 e 2019, e aprofundam questões e tensões sobre a realidade do país, reforçando o papel questionador do cinema.

A comissão de seleção da mostra foi composta por um time de quatro profissionais com os mais variados backgrounds nos campos do cinema e audiovisual: Flavia Candida, curadora, cineasta e produtora; Erly Vieira Jr, cineasta, escritor, pesquisador na área audiovisual e professor da Ufes; Ursula Dart, realizadora, produtora, diretora e fotógrafa de filmes; e Waldir Segundo, Programador do Cine Metrópolis e pesquisador de cinema. 

Erly Vieira Jr, um dos curadores da mostra, apresenta a seleção:

“Investigar, questionar e fabular acerca das inúmeras fraturas e cicatrizes de um país “quase continente” sempre foram estratégias utilizadas por nosso cinema em sua história, buscando compreender a realidade que nos cerca. Na última década, isso se intensificou, especialmente no contexto do curta-metragem, à medida que novos segmentos sociais, para além da hegemônica monocultura audiovisual de sempre, foram se tornando, a passos largos, sujeitos dos discursos fílmicos e passaram, cada vez mais, a produzir e fazer circular suas próprias imagens.

A atual safra de curtas-metragens que compõem esta mostra prosseguem nas veredas abertas pelas levas anteriores, aprofundando questões e por vezes arriscando respostas para as inúmeras tensões e lacunas que surgem no tecido social de um Brasil em intensa convulsão, tomado por impasses diante das quais nosso cinema não pode jamais se omitir.

Alguns filmes buscam ampliar os modos de cartografar as experiências daqueles que sobrevivem às margens do sistema – sem-teto, refugiados, população carcerária – e, nesses casos, é interessante entender que os olhares renovados, mais atentos e situados além dos usuais estereótipos, como os propostos, respectivamente, pelos filmes Arquitetura dos que habitam, Refúgio e Quando elas Cantam, também vêm acompanhado de elaborados desenhos sonoros que buscam sacudir o espectador de seu habitual torpor.

Especificamente no último desses filmes, o ato de cantar e sentir a musicalidade ecoar pelo próprio corpo é o elemento que refaz os vínculos entre as detentas, evidenciando uma ideia de comunidade como modo de resistir, que também atravessa outras obras desta mostra. É o caso de Fartura, que resgata a centralidade da partilha e abundância do alimento nas reuniões das famílias negras, como aspecto fundamental da cultura afrodiaspórica brasileira, ou ainda de Guaxuma, que aposta na amizade como primeiro escudo de enfrentamento da dureza o mundo.

Por vezes, as formas de resistir partem de questões individuais para ressignificar seu entorno – como os surpreendentes pontos de vista do garoto que toma para si o foco do documentário Cor de pele, ou a transfiguração do super-herói de quadrinhos para o cotidiano do aparentemente silencioso menino trans de O pássaro sem plumas. Há ainda o arrebatador relato em primeira pessoa em Sangro, que traduz o turbilhão de sentimentos diante do diagnóstico de soropositividade e do posterior processo de aceitação e amadurecimento, e os rituais de preparação para o fim da água no mundo (ou seria o mundo terminando em água?), pacientemente elaborados por Dôniara.

Nem sempre cabe tanta esperança, como quando presenciamos a dor da dupla rejeição enfrentada desde cedo pela criança queer negra em O órfão, mas a necessidade extrair forças inesperadas das próprias cicatrizes também é poderoso combustível de sobrevivência num mundo que tem como regra o apagamento de quem excede a mediocridade da norma.

Há os filmes que apostam no fim de uma era como possibilidade de refundação – seja pela sorrateira e irrefreável obstrução dos cômodos do Sobrado (que transpõe o conto “A casa tomada”, de Julio Cortázar, para o contexto anestesiado de nossas classes médias urbanas), seja pela reencenação alegórica do apocalipse com apóstolos oriundos das minorias mais perseguidas, em Os mais amados.

A praga do cinema brasileiro denuncia uma espécie de maldição em que presente e passado estão intimamente mesclados, de modo que problemas antigos (e inclusive já encenados e imaginados por nosso cinema) reaparecem com a falsa sensação de novidade, num perigoso eterno retorno que precisa ser urgentemente superado.

E há filmes que apostam na conjugação simultânea de gestos individuais e intervenções coletivas no cotidiano como formas de enfrentar o que sufoca, especialmente nos modos como os filhos da diáspora brasileira ocupam as ruas e demais espaços públicos e privados para reordenar os afetos. Seja na apropriação multicor do afrofuturismo para evidenciar as potências dos corpos inclassificáveis das bichas pretas em Negrum3, seja nos jatos de spray e colagens de stickers que, com suas frases instigantes, perfuram e costuram repetidamente a estabilidade da paisagem urbana em Riscadas, ou ainda na tensão entre o opressivo ambiente profissional e a liberdade dos prazeres corporais da esfera íntima em Tempestade.

Testemunhamos a vida em incessante movimento, prestes a ser saboreada com todas as suas inquietações, como quando os personagens de Perpétuo percorrem os escombros das edificações escravocratas na Baixada Fluminense, na vizinhança onde vivem: um misto de estranhamento, familiaridade, vida que segue e alguma fantasmagoria. Como bem define a sinopse do curta de Lorran Dias, “forças invisíveis do passado se atualizam entre as ruínas do presente” – inclusive as forças que podem virar o jogo e, com o auxílio do cinema, produzir um imaginário mais justo e diverso, capaz de nortear o futuro melhor que tanto desejamos.”

Este texto faz parte do catálogo do 26º Festival de Cinema de Vitória, que está disponível em https://issuu.com/vitoriacinevideo/docs/catalogo-26fcv

Os premiados da 23ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas com Troféu Vitória, nas seguintes categorias:

Melhor Filme pelo Júri Técnico – NEGRUM3, de Diego Paulino
Melhor Filme pelo Júri Popular – Sangro, de Tiago Minamisawa, Bruno H Castro e Guto BR
Direção – Diego Paulino, por NEGRUM3
Melhor Interpretação – Kauan Alvarenga, de O Órfão
Melhor Roteiro – Willian Alves e Zefel Coff, por A Praga do cinema Brasileiro
Contribuição Artística – Quando elas cantam, de Maria Fanchin
Prêmio Especial do Júri – Guaxuma, de Nara Normande

23ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas
Classificação Indicativa: 14 anos

Arquitetura dos que Habitam (Daiana Rocha, 5’, EXP, ES)

O cotidiano, tempo e detalhes de um lugar ocupado por pessoas.

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Os Mais Amados (Rodrigo de Oliveira, 28’, FIC, ES)

O mundo acaba e Emanuel precisa guiar João até o portal que leva os merecedores à eternidade. Emanuel está desesperado para ascender, mas João desafiará o direito do mestre ao paraíso. Uma adaptação queer-cristã do Apocalipse: Livro das Revelações.

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Sangro (Tiago Minamisawa, Bruno H Castro e Guto,7’, BR, ANI, SP)

Inspirado em uma história real, “Sangro” é a confissão íntima de uma pessoa que vive com HIV. Turbilhão de sentimentos. As primeiras sensações. Um filme em animação que busca desmistificar questões que sobrevivem até hoje no imaginário social em relação ao vírus.

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Senha S4ngr0

Dôniara (Kaco Olímpio,17’, FIC, GO)

Iara se prepara para o fim da água no mundo.

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Perpétuo (Lorran Dias, 27’, FIC, RJ)

Século XXI, América do Sul, Brasil, Rio de Janeiro, Baixada Fluminense, Nova Iguaçu, Cerâmica e Comendador Soares: Silvia e Alex voltam a morar juntos. Forças invisíveis do passado se atualizam nas ruínas do presente. Vida em movimento. 

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Guaxuma (Nara Normande, 14’, ANI, PE)

Eu e Tayra crescemos juntas na praia de Guaxuma. A gente era inseparável. O sopro do mar me traz boas lembranças.

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Riscadas (Karol Mendes, 15’, DOC, ES)

Tendo como cenário o Centro da capital do Espírito Santo, três artistas mulheres capixabas contam suas vivências e como a arte urbana aliado ao movimento feminista se tornaram importantes ferramentas no enfrentamento a violência contra a mulher.

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Tempestade (Fellipe Fernandes, 20’, FIC, PE)

Ao longe, sobrevoando os vulcões multiplicados, uma tempestade elétrica era gestada em silêncio.

Refúgio (Shay Peled e Gabriela Alves, 20’, DOC, ES)

Recomeçar em um novo país – faces da crise humanitária da imigração.

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NEGRUM3 (Diego Paulino, 22’, DOC, SP)

Entre melanina e planetas longínquos, NEGRUM3 propõe um mergulho na caminhada de jovens negros da cidade de São Paulo. Um ensaio sobre negritude, viadagem e aspirações espaciais dos filhos da diáspora.

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O Órfão (Carolina Markowicz, 15’, FIC, SP)


Jonathas foi adotado. Mas logo é devolvido ao abrigo devido ao seu “jeito diferente”

Quando Elas Cantam (Maria Franchin, 28′, DOC, SP)

Documentário sobre o projeto Voz Própria, desenvolvido por Carmina Juarez, que é voltado ao tratamento terapêutico de mulheres encarceradas a partir da articulação entre música e psicanálise. O filme acompanha de dentro da prisão os ensaios dessas mulheres para um show na Capela da Penitenciária Feminina de São Paulo, capital.

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senha: vozpropria2018

Sobrado (Renato Sircilli,22’, FIC, SP)

As cicatrizes nos corpos de quatro mulheres marcam um passado difícil de esquecer. Quando um dos cômodos da casa onde elas moram é tomado por algo desconhecido às vésperas da realização de uma grande festa, a segurança delas é colocada à prova. Elas não estão mais sozinhas.

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 O Pássaro sem Plumas (Tati Rabelo e Rodrigo Linhales, 15’, FIC, ES)

As aventuras de uma criança transexual na década de 80 que diariamente tem uma difícil escolha entre dois caminhos. O Pássaro sem Plumas é uma história de esperança e coragem.

senha: alex

*Fartura de Yasmin Thayná, não foi disponibilizado para ser exibido online. 

** A Praga do Cinema Brasileiro de William Alves e Zefel Coff, não está disponível pois o filme está em negociação com um canal de TV. 

***  Cor de Pele de Lívia Perini, não está disponível pois não obtivemos retorno da mesma. ****  O Órfão de Carolina Markowicz, ainda não não está disponível para ser exibido online.