Reconhecida janela de exibição dedicada à experimentação de linguagens e estéticas, a Mostra Corsária chegou à sua 8ª edição no 26º Festival de Cinema de Vitória, em 2019. O #FCVemCasa disponibiliza esta e outras mostras para você poder assistir ou reassistir durante a pandemia do COVID- 19 e o isolamento social no Brasil e no exterior.

Inspirada no filme “Alma Corsária”, de Carlos Reichenbach, a mostra exibe filmes que busquem evidenciar as influências do diretor na nova geração de cineastas brasileiros. Segundo a comissão de seleção, formada por Flavia Candida, Erly Vieira Jr, Ursula Dart e Waldir Segundo, os filmes selecionados apontam as principais linhas de força das vertentes do audiovisual nacional mais afeitas ao risco e à experimentação.

Erly Vieira Jr apresenta a mostra:

“Em sua oitava edição, a Mostra Corsária segue em sua missão de apontar as principais linhas de força das vertentes do audiovisual nacional mais afeitas ao risco e à experimentação – um cinema de arestas proeminentes e provocativas. Assim como muitos dos cineastas que estiveram presentes nas primeiras edições da Corsária hoje estão na linha de frente do longa-metragem brasileiro mais ousado e inventivo, de forte entrada no circuito internacional, acreditamos que a tradição da mostra é apontar para o futuro do nosso cinema, a partir do afiado gume estético e político de seus filmes.

Este ano, impressiona o fato de que mais da metade das 13 obras selecionadas faça uso da ficção científica (esse gênero de pouca tradição em nossa filmografia) ou pelo menos de narrativas distópicas para lançar olhares provocativos às questões urgentes do presente.

Há diversas apropriações do gênero, desde a crítica, em Unreal, à virtualidade cosmética com que se elogia a desenfreada avatarização dos indivíduos nos dias de hoje, ao tom farsesco e demolidor com que as falhas do serviço de teletransporte e viagem no tempo, em Plano controle, rearticulam os sonhos e desilusões políticas brasileiras das últimas décadas. Este filme, aliás, é representante de uma vertente que tem ganhado espaço no curta-metragem brasileiro dos últimos anos: um tipo de sci-fi distópico que aposta no precário, não somente como condição sine qua non da experiência periférica, mas também como potente arma para questionar as contradições, opressões e abismos sociais já há muito naturalizados em nossa sociedade.

Esse é um espírito partilhado por outros dois filmes desta seleção, que inclusive fazem da precariedade a força motriz para que sujeitos usualmente oprimidos possam tomar o espaço urbano pelas bordas e resistir: Cartuchos de Super Nintendo em anéis de Saturno, com sua potente crítica ao racismo estrutural, e Espavento, cuja protagonista e seus amigos buscam, subterraneamente, minar a hegemonia poluente da grande corporação que transformou a cidade num monstro – não à toa, a letra de “Moça”, canção de Evinha que a personagem escuta no fone de ouvido, descreve com exatidão poética suas motivações: “Seu sonho é passo em falso/ (…) /é como as flores que há debaixo do asfalto”.

A poluição também é uma preocupação em Escafandro, que oferece uma relação mais háptica (tátil) com o mundo, aposta que também ecoa em Seiva, que equilibra sua protagonista na tensão entre ser parte da paisagem por nós observada, e poder observá-la. A Profundidade da Areia, filme de êxodo, também aposta no háptico, como na sua sequência inicial ou na cena do espelho, e essa imagem que roça a pele do espectador parece irradiar suas propriedades táteis nas cenas seguintes, fazendo ecoar em nós a sensação da areia que nunca sai do corpo ou do sol que continua a ofuscar a visão, mesmo estando fora de quadro.

A corporeidade ressurge de outras formas em Chiclete (um dos raros filmes da seleção a apostar num final utópico): há toda uma coreografia dos corpos, tanto no permanente ato de se mastigar quanto na constatação da iminente proximidade da febre, que tanto temem os habitantes da ilha. Obeso Mórbido faz transbordar a ansiedade e obsessão com o corpo ideal para além dos limites de seu protagonista, num potente híbrido entre real e ficcional, enquanto que Estranho animal tem na metáfora seu ponto de partida para discutir ditadura e silenciamento.

Teoria sobre um planeta estranho aposta na psicodelia como chave (inclusive sensória, vide a cena do encontro com Deus) para discutir a irrealidade da perda da pessoa amada, além de um trabalho de montagem bastante complexo. É também sob a fricção de diversas camadas temporais que se estrutura o uso criativo do found footage de Sem título #5: A rotina terá seu enquanto, que parte de imagens do último filme de Yasujiro Ozu, para revelar outros sentidos na reorganização rítmica e semântica de imagens já tão canônicas para o público cinéfilo.

E, em meio a tantas possibilidades, Umas & outras é um rico elogio à fabulação, seja pelo prazer de uma conversa no terraço, seja pela contação de causos, que logo em seguida tornam-se delírios oníricos dos personagens, ou ainda pelos desdobramentos metalinguísticos e citações intertextuais – como uma partida de futebol com bola de fogo, que tanto remete ao cinema de Apichatpong Weerasethakul, quanto a um popular meme surgido de um vídeo amador, ao mesmo tempo que se encaixa com total naturalidade no universo proposto pelo curta de Samuel Lobo.”

Este texto faz parte do Catálogo do 26º Festival de Cinema de Vitória.

8ª Mostra Corsária
Classificação Indicativa 16 ANOS

Melhores Filmes pelo Júri Técnico – A Profundidade da Areia, de Hugo Reis e Plano Controle, de Juliana Antunes

Teoria sobre um Planeta Estranho (Marco Antônio Pereira, FIC, 15’, MG)

Uma jovem com deficiência auditiva está apaixonada pelo jovem frentista do posto de gasolina de Cordisburgo. Os familiares da moça não querem que ela se case, mas só ele consegue acessar o mundo ao qual ela pertence.

senha: cinema

Escafandro (Carolena de Moraes, EXP, 13’, CE)

Um apanhador de lixo que se depara com a inutilidade de seu ofício ao sentir que o lixo da cidade só aumenta e ele nada pode fazer. Agoniado por um presságio, ele decide agir.

Unreal (Luiz Will Gama, EXP, 15’ ES)
Como seria  se existisse um aplicativo capaz de alterar a nossa realidade durante a capturas de fotos e vídeos para as redes sociais? O que escolheríamos alterar em nossa realidade? A nossa aparência, o local onde tiramos as fotos ou quem sabe o som ambiente? Mas como saberíamos o que é real ou não? Quais seriam os impactos dessa falsa realidade?

Obeso Mórbido (Diego Bauer e Ricardo Manjaro, EXP, 14’, AM)

Diego é um ator que era obeso e emagreceu 43 quilos em 2 anos. Ele precisa lidar com as inseguranças e possibilidades que esse novo corpo representa.

Cartuchos de Super Nintendo em Anéis de Saturno (Leon Reis, FIC, 20’, CE)

Diante da dor, solidão e desespero, um homem negro assopra um cartucho de Super Nintendo em uma encruzilhada.

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Seiva (Ramon Batista, FIC, 8’, PB)
Entre a contemplação e o alerta para trazer luz a seiva essencial da vida, a água. Recurso finito e fundamental.

Estranho Animal (Arthur B. Senra, EXP, 5’, MG)

Estranho animal a ditadura: homens sem asas, pássaros sem pés.

A Profundidade da Areia (Hugo Reis, FIC, 17’, ES)

Num tempo impreciso, uma caminhada contínua e uma ameaça constante. Vestígios na areia revelam memórias que eles parecem desconhecer, mas não totalmente.

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Umas & Outras (Samuel Lobo, FIC, 20’, RJ)

Entre uma ideia e outra sempre tem alguma história.

*Sem Título #5: A Rotina terá seu Enquanto de Carlos Adriano não está disponível  por conta de compromissos firmados com museus e galerias de arte.

**Espavento de Ana Francelino não está disponível pois o mesmo está circulando por festivais.

***Plano Controle de Juliana Antunes não está disponível pois tem contrato de exclusividade com o Canal Brasil de 4 anos.

****Chiclete de Philippe Noguchi não está disponível pois o mesmo está em circulação nos festivais.