Diante do avanço do Coronavírus (COVID-19) no Brasil e com as medidas de isolamento determinadas pelas autoridades para diminuir o risco de contaminação da população, o Festival de Cinema de Vitória lança uma opção para curtir os filmes da edição passada, que aconteceu em 2019, em Casa.

Os filmes selecionados para a Mostra Mulheres no Cinema no 26º Festival de Cinema de Vitória ofereceram ao público a multiplicidade presente nos olhares femininos de diferentes regiões do país sobre as questões importantes para as mulheres. A curadoria formada por Bárbara Cazé, Hégli Lotério e Saskia Sá definiu uma seleção de filmes dirigidos e protagonizados por mulheres. 

Em sua 4ª edição, a mostra Mulheres no Cinema reafirmou seu compromisso em debater a pluralidade do ser feminino. Agradecemos a todas as diretoras que nos confiaram seus filmes acreditando na força do Festival de Cinema de Vitória, e que trouxeram suas visões plurais de todos os cantos do país. 

Os quatro curtas-metragens evidenciam a força das mulheres e sua atuação como fundamentais em suas comunidades como uma tendência observada nas produções inscritas, desde as mais tradicionais àquelas presentes nas grandes metrópoles brasileiras.

É o que podemos ver com o curta-metragem “Deus te dê boa sorte”, com direção de Jacqueline Farias. O curta exalta a força das mulheres a partir das Parteiras na comunidade indígena Pankaru, às margens pernambucanas do Rio São Francisco. Além de receberem os novos integrantes da comunidade, elas são responsáveis também pela preparação das mulheres mais jovens para dar continuidade a tradição.

Entre o conhecimento científico e o conhecimento ancestral, as mulheres da comunidade optam pelo fortalecimento da rede de apoio feminino, parindo em casa sob orientação das parteiras. 

Fosfeno”, de Clara Vilas Boas e Emanuele Sales, transporta o telespectador para a estética jovem, urbana e noturna das festas com música eletrônica. O filme em tons de lilás faz referência à cor símbolo do movimento feminista. Na trama, um casal lésbico interracial vive uma noite ou o tempo de duração de sua paixão. A ausência de diálogo indica que a comunicação pode se dar de vários modos. A produção mineira oferece ao público uma experiência fílmica próxima do universo psicodélico. 

As diretoras negras se destacaram nesta edição. “Poder”, da diretora Sabrina Rosa, traz a força e o protagonismo das mulheres negras na disputa por uma narrativa autoral sobre suas vidas a partir de quatro amigas moradoras da cidade do Rio de Janeiro. Um filme divertido em sua abordagem para tratar dos conflitos cotidianos atravessados pelas protagonistas ao longo da trama, que reflete sobre questões de gênero, classe, raça e violência contra a mulher com referência ao universo dos quadrinhos. 

Utilizando linguagem experimental, “Afeto”, das diretoras Gabriela Gaia Meirelles e Tainá Medina, fala sobre arquitetura, memória e ocupação feminina do espaço urbano. O filme resgata a memória e dá visibilidade à produção feminina na arquitetura, tratando de questões contemporâneas relacionadas ao corpo feminino em seu embate com a cidade. Afeto traz uma possibilidade de reflexão sobre a questão de ocupação dos espaços urbanos e de como esses espaços sugerem um apagamento do corpo feminino. O som do filme é um elemento central para compreender a violência que as mulheres sofrem nas grandes metrópoles brasileiras.

Esperamos que vejam ou revejam estes filmes imperdíveis que foram exibidos na última edição do Festival de Cinema de Vitória!

Esta matéria foi baseada no texto curatorial da 4ª Mostra Mulheres no Cinema e ele está disponível no Catálogo do 26º Festival de Cinema de Vitória. Quem assina o texto são as três curadoras da Mostra, Bárbara Cazé, Hégli Lotério e Saskia Sá.

Uma boa sessão!

4ª Mostra Mulheres no Cinema:

Classificação Indicativa: 16 anos

Deus te dê boa sorte (Jacqueline Farias, 23’, DOC, PE)
Deus te dê boa sorte é um curta-metragem documental que revela a voz ancestral das  mulheres parteiras indígenas Pankararu. Habitantes das margens do Rio São Francisco, na fronteira dos municípios de Tacaratu, Jatobá e Petrolândia, essas mulheres de espiritualidade antiga, carregam a experiência de receber no mundo os pequenos índios e índias e de garantir que sangue, placenta e cordão umbilical retorne para a terra, guardando o direito de que habitem o chão onde nasceram.

 Fosfeno (Clara Vilas Boas e Emanuele Sales, 12’, FIC, MG)

Teçá é uma jovem solitária que trabalha como DJ e sofre com suas memórias vívidas. Durante seu setlist em uma festa, uma mulher tira uma foto de Teçá. Essa mulher continua aparecendo pelo seu caminho.

Poder (Sabrina Rosa, 19’, FIC, RJ)

Poder conta a história de quatro amigas negras vivendo seus dramas cotidianos. Durante um banho de cachoeira, elas recebem uma carga energética que lhes dá superpoderes.

Afeto (Gabriela Gaia Meirelles e Tainá Medina, 15’, EXP, RJ)

O corpo-mulher versus o trator-cidade. Um apagamento histórico, arquitetônico, simbólico. Um desmemoriamento. Em meio à uma das maiores crises políticas e representativas brasileiras, AFETO é um curta-metragem experimental sobre arquitetura, memória e ocupação feminina do espaço urbano.