Além da maratona de exibições e das homenagens, o 33º Festival de Cinema de Vitória conta em sua programação com atividades formativas na área audiovisual. Uma delas foi a masterclass conduzida pela atriz Carla Cristina Cardoso intitulada A Laje do Talento, realizada na tarde desta quinta-feira (23) no Sesc Glória. Em uma conversa inspiradora, a artista compartilhou com o público sua trajetória de vida marcada por obstáculos, perseverança e conquistas. Com humor, ela conduziu os ouvintes por sua história com uma mensagem central: desistir não é uma opção, especialmente para quem vem de contextos de vulnerabilidade social, racial e econômica.
Carla começou sua história pelo começo — literalmente. Nascida prematura, com apenas 1,2 kg, sua sobrevivência já foi um primeiro ato de resistência. A atriz contou que nasceu em um hospital enquanto a mãe fazia um exame pré-natal, sem que ela sequer sentisse as dores do parto. Ainda no hospital, a equipe médica alertou a mãe de que Carla poderia não sobreviver. Dois meses depois, a mãe pediu alta contra a orientação médica. Em casa, o berço da pequena Carla era uma caixa de sapatos do pai.
Foi nas aulas de arte cênica, ainda na escola pública, que Carla percebeu que o teatro seria seu caminho. Enquanto os colegas preferiam outras atividades, ela se entregava com entusiasmo às cenas e improvisos. Uma professora, ao notar seu talento, chamou sua mãe para uma conversa e a incentivou a correr atrás daquele dom. A mãe, que trabalhava como doméstica, não tinha recursos para pagar cursos na época, mas guardou aquela recomendação com carinho.
Anos depois, já jovem, Carla conseguiu se matricular em um curso de teatro. No primeiro dia, um professor a ridicularizou na frente da turma, dizendo que ela não tinha perfil para a profissão. A frase foi dura, mas não a abalou. Em vez de recuar, ela respondeu com convicção e seguiu em frente. Pouco tempo depois, passou em uma oficina concorrida e foi alocada na turma mais avançada — fato que a surpreendeu e confirmou seu potencial.
Carla contou que uma amiga de teatro a convidou para trabalhar como assistente de closet de uma atriz famosa, com um salário atrativo — mas com uma condição: ela teria que largar a oficina de teatro. A amiga insistiu: “Larga, o salário é ótimo, quatro dias na semana.” Ao chegar em casa, contou o ocorrido para sua mãe que respondeu: “Acabei de descobrir que você é boa, hein? Você tá incomodando. Agradece a ela. Porque eu já identifiquei que o que você tem, ela não tem”. A mãe de Carla, já havia entendido que o incômodo que Carla causava na amiga vinha de um lugar de inveja — e não de preocupação genuína.

Carla também relembrou um antigo amigo de escola, um gênio da matemática que, anos depois, tornou-se chefe do tráfico na Rocinha. Ela o encontrou por acaso em um baile funk e, mais tarde, soube que ele havia sido preso transportando drogas. Essa história a fez refletir sobre como as escolhas moldam destinos — e como o talento, quando mal direcionado, pode levar a caminhos irreversíveis.
Carla dedicou boa parte de sua fala à construção da personagem Bruna, em Vai na Fé, novela que marcou a dramaturgia brasileira com um elenco majoritariamente negro e protagonistas que não estavam reduzidos a papéis de empregadas ou sofrimento. Para compor Bruna, Carla se baseou em sua própria vivência com sua mãe, suas tias e as mulheres da periferia. “A Bruna, a gente que vem da onde a gente veio, já conheceu ela, né? No bairro, na rua, na favela, na comunidade. Todo mundo tem uma Bruna na família.” Carla insistiu para que Bruna usasse tranças com apliques, um visual típico das mulheres suburbanas. “A mulher periférica e favelada gosta de andar bonita, gosta de trançar, gosta de botar aplique, botar rabo. Não tem isso de cabelo liso.” A interpretação de Carla como essa personagem se tornou icônica e arrancou identificação de milhares de mulheres em todo o país.
Entre os novos projetos que está envolvida, Carla destacou um filme sobre Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de Despejo, que escreveu obras-primas mesmo em situação de extrema pobreza e fome. Para Carla, a escritora é um símbolo máximo de persistência, porque produziu arte nas condições mais adversas: “É uma mulher que conseguia escrever livros, obras-primas, com o maior inimigo do mundo, que é a fome. Eu com fome não consigo dar nem bom dia. E ela é uma gênia.” A atriz também mencionou outros trabalhos em andamento, como séries e filmes para plataformas e emissoras.
Carla encerrou a masterclass com um convite à reflexão sobre o que realmente move o artista periférico. Para ela, o sucesso não está no dinheiro ou na fama, mas em poder exercer suas potencialidades e, acima de tudo, em não desistir. “De onde eu venho, a gente quer chegar só a fazer. É curar o nosso talento. E quem não tem o talento, tem a vocação. Porque, às vezes, a pessoa que tem vocação, chega mais longe do que quem tem talento. Porque tem talentoso, preguiçoso. Agora, quando tu tem talento e vocação: explodiu. Quando tem vocação, você rala tanto, você se põe tanto atrás do que você quer, que você consegue. Então, de onde eu vim, enriquecer não é o objetivo. É conseguir fazer”.
O 33° Festival de Cinema de Vitória conta com o patrocínio da Petrobras e da Vale e com o copatrocínio do Banestes, através da Lei Rouanet. Conta com o apoio da TV Gazeta, da Carla Buaiz Joias, do Canal Brasil, do Fórum dos Festivais, da Stone Milk, da Conecta Acessibilidade, da TVE Espírito Santo e do Canal Like. Conta também com o apoio cultural da Vol Service e a parceria do Sesc Espírito Santo. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte – IBCA.
