Realizadores da primeira sessão da 30ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas e da 16ª Mostra Competitiva Nacional de Longas, cujos filmes foram exibidos na segunda noite do 33º Festival de Cinema de Vitória participaram de debate edição na manhã desta segunda-feira (21), no Hotel Senac Ilha do Boi. Além dos representantes dos filmes em competição, estiveram presentes jornalistas e Viviane Pistache, curadora e crítica de cinema que atuou como mediadora do debate. Entre os assuntos discutidos, o encontro tratou da representação da masculinidade e suas fragilidades, da religião no cotidiano e na conformação de valores, das identidades diversas (não-binárias, transmasculinas, negras), da repressão e libertação dos corpos, e da relevância social e política do cinema brasileiro contemporâneo.

Em sua fala introdutória, Viviane Pistache observou que os filmes exibidos na véspera trouxeram reflexões sobre fé e sobre o papel do masculino em diferentes contextos. Ela destacou como cada obra lidou com falhas ou tensões em relação ao ideal de masculinidade: em Irmã, a figura paterna gera desgaste dentro da família; em Fronteriza, a ausência do pai abre espaço para a construção de novos vínculos afetivos e formas alternativas de parentesco. Em Tião, Personal Dancer a representação de um masculino negro e sedutor na velhice, ressaltando a beleza presente nessa fase da vida. E, por fim, Virtuosas que, embora não tenha personagens homens, carrega fortemente a sombra de uma exigência masculina de perfeição sobre o feminino. Com essas provocações, ela deu início à conversa e, em seguida, convidou os realizadores a se apresentarem antes de abrir perguntas específicas para cada produção. Outro aspecto que chamou a atenção nos filmes debatidos foi a metáfora da “água” surge como um fio condutor que perpassa a ancestralidade, o tempo e a fluidez das identidades nas produções em questão.

Roteirista, produtor, diretor e montador da ficção Irmã, Anderson Bardot disse que a água funciona como elemento central e metáfora estruturante do seu filme e representa a continuidade entre gerações, a passagem do tempo, a transformação lenta (como a erosão das pedras) e a dissolução de ideias fixas, como certas noções de masculinidade. “A forma que esse filme tem é uma forma de água, é uma forma de um rio. O filme nasce dessa primeira ideia da água em si, porque o nosso corpo é formado de água. E se o nosso corpo é fumado de água, muita gente veio antes da gente. Essa água que pertence aos corpos do nosso antepassado, nossos ancestrais, de alguma maneira retornaram para suas fontes. E se elas retornarem para suas fontes, quando a gente entra dentro de uma cachoeira, a gente está tomando banho com os nossos ancestrais, de alguma forma”.

Rosa Caldeira, diretor de Fronteriza, descreveu a construção de seu filme como um processo vivo e aberto, que foi transformando ao longo do tempo – gravado em um momento, editado com outra cabeça – e que abraça suas imperfeições como parte de sua liberdade criativa: “Acho que o filme investiga a masculinidade nesse sentido, de esse personagem estar procurando esse pai, essa masculinidade idealizada, esse encontro entre um transmasculino e um homem cisgênero gay. Foi um processo livre de coisas que estavam inquietando a gente na época e que hoje em dia sinto que a gente tem uma visão um pouco diferente. Talvez a gente reivindique para além da masculinidade, porque mulheres e cisgêneros também são atravessadas pela masculinidade, mas como que na verdade, essa experiência transmasculina traz essa perspectiva de que a gente está falando sobre gênero”. O diretor e ator Nay Mendl também esteve presente no debate. 

A ficção Tião Personal Dancer explora o desejo queer entre homens negros maduros em um ambiente heteronormativo (o forró), usando a figura do “personal dancer” e a busca por um espaço seguro de manifestação de afeto. O diretor Aristótelis Tothi contou que o ponto de partida para a construção do filme foi o universo do forró e a figura de um personal dancer (Tião), observado desde a adolescência. O que inicialmente era um interesse etnográfico por espaços de convivência de pessoas mais velhas se deslocou para uma investigação mais profunda sobre os desafios da performance masculina – especialmente para homens negros e maduros em contextos heteronormativos. Nesse curta, a narrativa se constrói a partir de camadas afetivas e sensoriais: o desejo não é tratado como algo imediato, mas como algo que se constrói e se consolida em espaços de segurança – como o banheiro do forró, que paradoxalmente se torna um lugar de encontro e ruptura de protocolos. “A gente está trabalhando masculino, mas eu também me interessava por entender sobre os desafios dessa performance. Para além desse campo da sedução, para além desse jogo de flerte que acaba criando uma história. Mas era um desejo com que isso pudesse acontecer, com que isso pudesse ser também meio galopante, esse efeito de crescente, mas que fosse dentro desse espaço que tivesse uma segurança para que essa demonstração Para, antes de tudo, preparar esse tempo para o que a gente chama dessa camada afetiva: de possibilitar que dois homens maduros, negros, se encontrem, possam sentir esse tesão, possam manifestar essas vontades”.

No debate, o filme Virtuosas foi representando por Maria Galant Melgarejo, que integra o elenco da ficção. Segundo ela, o longa-metragem não apenas denuncia o estereótipo, mas também convida o espectador a perceber como ele mesmo pode estar reproduzindo visões reducionistas sobre grupos religiosos. A narrativa, assim, se constrói como um olhar atento ao presente, capturando fenômenos que muitas vezes passam despercebidos, e trazendo-os para o centro do debate cinematográfico. “Virtuosas fala desse  ideal de mulher, dessa busca por uma coisa que a gente nunca alcança. O filme também fala muito do lugar onde as coisas acontecem dessa forma e a gente dá poder para as pessoas porque a gente subestima elas. A construção da imagem que a gente tem da igreja evangélica no Brasil como um todo é uma visão muito distanciada, o que subestima essas pessoas a um estereótipo que existe, mas que é um estereótipo”.

O 33° Festival de Cinema de Vitória conta com o patrocínio da Petrobras e da Vale e com o copatrocínio do Banestes, através da Lei Rouanet. Conta com o apoio da TV Gazeta, da Carla Buaiz Joias, do Canal Brasil, do Fórum dos Festivais, da Stone Milk, da Conecta Acessibilidade, da TVE Espírito Santo e do Canal Like. Conta também com o apoio cultural da Vol Service e a parceria do Sesc Espírito Santo. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e ArteIBCA.  

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