A terceira noite do 33º Festival de Cinema de Vitória, que aconteceu na segunda-feira (20), no Teatro Glória (Sesc Glória), contou com a homenagem à atriz Camila Morgado, as sessões da 30ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas com os filmes O que faço com isso agora que acabou?, de Julia Uliana e Natália Dornelas; Pequeno London, de Victor Di Marco e Márcio Picoli; A Pele do Ouro, de Marcela Ulhoa e Yare Perdomo; e da da 16ª Mostra Competitiva Nacional de Longas com o documentário A Caminhada Sagrada de Tatatxi Ywarete. Os apresentadores da noite foram o ator Fabrício Boliveira e o cantor e ator Silvero Pereira

MOSTRA DE CURTAS 
Foto: Sérgio Cardoso/ Acervo Galpão IBCA

O primeiro curta da noite foi a produção capixaba O que faço com isso agora que acabou? (foto). A ficção acompanha duas atrizes que confrontam suas memórias ao gravarem um filme sobre câncer, se deparando com o dilema sobre o que realmente está sendo retratado. O filme apresenta uma narrativa nada convencional para enfrentar as dores da doença. As diretoras Julia Uliana e Natália Dornelas, juntamente com a equipe do filme, subiram ao palco para apresentarem a ficção. “Estou muito feliz que tem outras direções compartilhadas, foi uma coisa que eu achei interessante de ver outros filmes também. Dividir a direção com a Júlia realmente foi um processo muito lindo e me ensinou muito. A gente encontrou esse terceiro olhar, que é o meu e o dela juntos, assim, então, potencializou o filme com certeza”, disse Natália Dornelas. “O que faço com isso agora que acabou? é um filme que partiu de uma experiência pessoal minha de ter tido um câncer. Mas a minha vontade sempre foi fazer um filme que não falasse sobre a doença em si, falasse sobre o que vem depois. E falasse sobre essa tentativa da gente se reentender e se redescobrir no mundo quando tudo que a gente conhece muda. Eu dirigi e atuei no filme, então foi um processo muito incrível que foi possível por conta de todas as pessoas que estão aqui. Quando escrevi o roteiro do filme, foi em um momento que eu queria muito viver. Então eu espero que, através do filme, vocês também sintam essa vontade de viver”, disse de forma emocionada Julia Uliana .

Foto: Melina Furlan -Vikki-Dessaune/ Acervo Galpao IBCA

Na sequência, o curta gaúcho Pequeno London (foto), apresentou a história de London, uma criança com deficiência que tem um desejo insólito: o feto de sua mãe. Aqui, a deficiência é valorizada e compreendida como uma forma singular de inteligência corporal, trazendo outros paradigmas para a cinefilia brasileira. O diretor Márcio Picoli destacou o quanto é  gratificante exibir o filme no Festival de Cinema de Vitória. “Esse é um dia muito especial pra gente, quero muito agradecer a nossa equipe e a todo mundo que sonhou com esse filme. E ele foi feito com muito esforço, com muita dedicação e é fruto de incentivo público e leis públicas. Sempre gosto de lembrar a importância da gente continuar brigando por esses espaços cada vez mais”. O diretor Victor Di Marco explicou que o filme faz parte de uma pesquisa que busca entender a deficiência enquanto uma linguagem e uma inteligência. O filme é um manifesto porque a gente ainda vive num mundo em que a medicina quer fazer de tudo para matar os nossos corpos. Esse filme nasceu a partir de uma memória minha de quando eu era pequeno e que ouvia muito a frase de que nenhum pai e nenhuma mãe queriam ter um filho com deficiência. Então, investigar o que é ter uma deficiência e por que a deficiência é vista como algo ruim é devolver para nós, enquanto sociedade, essa pergunta de por que ninguém deve ter um filho, um namorado, um amigo, enfim, alguma pessoa com deficiência na sua vida. Espero que o nosso filme toque vocês”.

Foto: Melina Furlan – Vikki Dessaune/ Acervo-Galpão IBCA

De Roraima, o documentário A Pele do Ouro, encerrou a sessão de curtas. A obra parte dos diários íntimos de Patri, que escreve, narra e atua no filme, revisitando memórias marcadas pela infância na Venezuela e pelos riscos assumidos na busca do sonhado ouro na Amazônia brasileira. O filme revela a condição da mulher no garimpo, onde tudo é revirado e explorado. ”Estou muito feliz de estar aqui. Gostaria de agradecer a curadoria pela oportunidade de estar aqui nesse festival tão incrível, nesse teatro lindo, com um público tão bonito e dividindo esse dia de exibição com outros títulos tão fortes. Não poderia deixar de agradecer a nossa equipe, que é uma equipe pequena, nós somos metade brasileiros e metade venezuelanos com muitas mulheres na equipe. Quero agradecer especialmente à Patri [protagonista do curta] que, para além de literalmente compartilhar a sua história com a gente a partir dos seus diários, roteirizou,  protagonizou e idealizou o filme. Então, algo só foi possível a partir dessa entrega, desse encontro entre mundos. É um filme que conta sobre a exploração da terra, da natureza e dos corpos, principalmente de nós mulheres. Espero que esse filme toque vocês tanto quanto todos nós. E também gostaria de agradecer às leis de incentivo à cultura que possibilitaram que esse filme fosse feito: a  Lei Paulo Gustavo e a Lei Aldir Blanc, que são extremamente importantes para que a gente possa continuar fazendo cinema no norte do país, na Amazônia. Cinema de fronteira. Então, viva o cinema nacional”, disse a diretora.

MOSTRA DE LONGAS 
Foto: Sérgio Cardoso/ Acervo Galpão IBCA

Fechando a noite, a 16ª Mostra Competitiva Nacional de Longas exibiu o longa-metragem capixaba A Caminhada Sagrada de Tatatxi Ywarete. O documentário revive a trajetória de Tatatxi Ywarete, que foi curandeira, parteira e guia espiritual do povo Guarani Mbya. Essa líder espiritual dedicou sua vida a curar, orientar e guiar suas famílias rumo à Terra Sem Males, em uma caminhada que durou 35 anos, iniciada na década de 1940 no Rio Grande do Sul, percorrendo diversos estados até se estabelecer em Aracruz, no Espírito Santo. Totalmente falado em língua guarani, com legendas em português, o filme  envolveu cerca de 20 jovens indígenas na equipe de produção.

O diretor indígena Wera Djekupe, é bisneto de Tatatxi Ywarete, e ressaltou a importância desse resgate e registro por meio do cinema: ”Esse filme é para que os nossos jovens não esqueçam a nossa cultura, a nossa tradição, a nossa língua, o nosso valor, a nossa conexão com a espiritualidade, a conexão com a floresta, o respeito a todo sagrado. É  para aquelas crianças que estão crescendo e que estão nascendo agora não esqueçam da história. E esse trabalho é para eternizar a história de Tatatxi Ywarete”. Também estiveram presentes na sessão algumas das anciãs guaranis que detém a memória viva da jornada de espiritual de Tatatxi Ywarete e parte da equipe envolvida no filme,  boa parte deles descendentes diretos da líder religiosa guarani retratada no documentário.

O 33° Festival de Cinema de Vitória conta com o patrocínio da Petrobras e da Vale e com o copatrocínio do Banestes, através da Lei Rouanet. Conta com o apoio da TV Gazeta, da Carla Buaiz Joias, do Canal Brasil, do Fórum dos Festivais, da Stone Milk, da Conecta Acessibilidade, da TVE Espírito Santo e do Canal Like. Conta também com o apoio cultural da Vol Service e a parceria do Sesc Espírito Santo. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e ArteIBCA.  

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