O último debate do 33º Festival de Cinema de Vitória, realizado na manhã deste sábado (25) no Hotel Senac Ilha do Boi, foi um momento para discutir o filme Entre o Sucesso e a Lama, exibido na 16ª Mostra Competitiva Nacional de Longas na noite de sexta-feira (24). Entre os assuntos abordados no encontro, discutiu-se a trajetória artística do diretor Cristiano Burlan, que é vinculada à periferia de São Paulo, o atravessamento do filme pela realidade social e política do território e os desafios éticos inerentes à produção de documentários com pessoas em vulnerabilidade social. Com a presença de jornalistas, a conversa foi mediada pela curadora e crítica Viviane Pistache
Cristiano Burlan começou sua fala resgatando a infância no Capão Redondo, nos anos 1980 e 1990, região então conhecida como “Triângulo da Morte”. Ele perdeu 16 amigos, a maioria assassinada por policiais militares. Nesse ambiente hostil, encontrou na literatura, no teatro e no rap um vocabulário que lhe deu segurança — e o cinema, na época, era uma arte impensável. “O que me trouxe um vocabulário que me deu segurança, antes de mais nada, foi a literatura e depois o teatro. O cinema era impensável na minha vida, quando você nasce na periferia. Até hoje é uma arte muito cara”, disse Burlan
O teatro, segundo ele, sempre foi sua morada. Começou aos 14 anos com o ator Osmar Prado e carrega essa influência até hoje. Burlan citou o diretor sueco Ingmar Bergman, que via o teatro como refúgio diante da insegurança do setor cinematográfico, e o diretor teatral britânico Peter Brook — para quem o teatro é enquanto duas pessoas conversam e uma terceira observa. Essa perspectiva expandida guia sua abordagem, na qual a câmera assume o lugar do público.
Entre o Sucesso e a Lama não nasceu de uma ideia própria de Burlan, mas de um convite. Sua ex-companheira, Carolina Marinho, trabalhava com um grupo de teatro no Jardim Romano, extremo leste de São Paulo, formado por migrantes do Rio Grande do Norte que fugiram da seca para enfrentar as enchentes do Rio Tietê. O projeto envolvia a produção de um disco para 16 artistas do território, com o vocalista dos Racionais MCs, Edi Rock, e o cantor Nego Bala.

O que era para ser um registro simples, com recursos escassos, cresceu: o cineasta fez 32 diárias de filmagem, com equipe e equipamento precários, e transformou o material em um filme que também se desdobrará em uma série de oito episódios. Mas o projeto foi atravessado pela violência do mundo real: “Raramente, quando você está fazendo um filme, acontece de a vida tocar o filme. Só que no meio disso, a prefeitura começa a atacar o Teatro de Contêiner e a Favela do Moinho, que é próxima ali”, relatou Burlan. A destruição do teatro, os despejos, a repressão da GCM e da Polícia Militar — tudo isso entrou no filme. E Burlan pagou um preço por registrar essas cenas: em 2013, recebeu e-mails de ex-comandantes da PM com ameaças de morte. “Você não reage a esses poderes impunemente. Você tem uma reação. O ato de pegar uma câmera e filmar as coisas do mundo já é um ato político”, afirmou o diretor.
Burlan falou sobre as escolhas éticas difíceis que precisou fazer. Ele tem imagens mais violentas — como um policial quebrando o nariz de um jovem com um fuzil —, mas optou por não usá-las. “Tem coisas que não devem ser mostradas nem escritas.” Ele também criticou a forma como muitos cineastas retratam a Cracolândia — como um “zoológico” onde só se filma pessoas fumando crack, sem capturar a complexidade humana daquele espaço. E defendeu que a qualidade técnica não é o mais importante: citou documentários como O Pacto de Adriana e Entreatos, nos quais imagens e sons imperfeitos não diminuem a força do filme.
Ao longo do debate, Burlan destacou a delicadeza de filmar pessoas em situação de rua, dependência química ou envolvimento com o crime. Sobre as pessoas que aparecem no filme, ele disse que muitas têm expectativas irreais — como ganhar um Oscar — e que o processo de edição foi complexo, com todos dando palpites. Mas ele aprendeu a ouvir e argumentar com honestidade: “Uma coisa que eu aprendi nesse filme é deixar a pessoa falar, esgotar o argumento dela, pra depois mostrar e tentar ganhar.”
O 33° Festival de Cinema de Vitória conta com o patrocínio da Petrobras e da Vale e com o copatrocínio do Banestes, através da Lei Rouanet. Conta com o apoio da TV Gazeta, da Carla Buaiz Joias, do Canal Brasil, do Fórum dos Festivais, da Stone Milk, da Conecta Acessibilidade, da TVE Espírito Santo e do Canal Like. Conta também com o apoio cultural da Vol Service e a parceria do Sesc Espírito Santo. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte – IBCA.
