A noite de sexta-feira (24), penúltimo dia do 33º Festival de Cinema de Vitória contou com uma dupla sessão especial e com a exibição do longa-metragem Entre o Sucesso e a Lama, de Cristiano Burlan, que integra a 16ª Mostra Competitiva Nacional de Longas. No Teatro Glória, o público conferiu as Sessões Especiais, com a exibição do curta-metragem restaurado Água, Açúcar e Sal, de Paulo Jabur, Nelson Rodrigues Jr, Noilton Nunes e Rubens Corveto, seguida do primeiro episódio da série Não Se Reprima, Rafael Terpins, ambos fora de competição. Os apresentadores da noite foram os atores Carla Cristina Cardoso e Kelner Macêdo.
O primeiro filme exibido foi o curta-documentário Água, Açúcar e Sal, um documento de valor histórico, filmado em 1979. Realizado de forma clandestina por presos políticos do Presídio Frei Caneca, no Rio de Janeiro, o filme registra a greve de fome de 14 detentos que, por 32 dias, exigiram a ampliação da Lei de Anistia, que à época excluía aqueles condenados por homicídio.

Quem subiu ao palco para representar o filme foi o ativista político e um dos presos políticos presentes no filme Perly Cipriano. Em sua fala, ele descreveu como o documentário foi feito em um contexto de censura rigorosa, um registro feito na ilegalidade, com meios precários, mas com imensa potência simbólica, para afirmar que a luta por dignidade não se apaga, mesmo atrás das grades: “Assim como este festival, esse filme é um registro da história, da memória, do resgate. É isso que nós queremos fazer, a intenção era que, com arte e com dedicação, pudéssemos mostrar o que nós estávamos vivendo e os nossos sonhos, que nós tínhamos conquistado a cidadania antes da liberdade. Porque nós já recebíamos visita dos grandes artistas da TV, dos representantes de movimentos sociais e populares. Portanto, nós tínhamos conquistado a cidadania antes de conquistar a liberdade. E agora a liberdade é uma coisa muito sagrada”
Em seguida, o público conferiu a estreia do primeiro episódio da série Não Se Reprima, produção do Canal Brasil que também foi veiculada na emissora nessa noite. A série investiga o fenômeno pop da boy band porto-riquenha Menudo, que em 1985 realizou uma turnê histórica no Brasil, com 18 shows para aproximadamente dois milhões de pessoas. A produção contextualiza a MenudoMania na complexa cena sociopolítica da época, com a morte de Tancredo Neves e o país recém-saído de uma ditadura militar.

Subiram ao palco para falar sobre essa produção o diretor Rafael Terpins, o produtor executivo Denis Feijão e as representantes do Canal Brasil Daniele Lobato e Aline Junqueira. “Estou muito feliz e honrado em participar do festival, é um prazer maravilhoso estar aqui e poder exibir na telona, pois originalmente esse projeto foi pensado como filme e depois se transformou numa série. E é muito interessante também que o episódio seja exibido logo depois de um filme falando sobre os anos de chumbo, porque a gente descreve essa feliz coincidência do grande hit ‘Não se reprima’ está entrando no país logo depois que sairmos dessa repressão que tivemos durante a ditadura militar. Nossa série é super bem humorada e faz um retrato com material inédito desse período maluco que foi 1985. Espero que todo mundo curta bastante porque a gente gostou muito de fazer”, disse Terpins.
Encerrando a noite, o longa-metragem documental Entre o Sucesso e a Lama traz o registro em cinema direto do projeto artístico-pedagógico homônimo, realizado no Teatro de Contêiner Mungunzá, na Cracolândia paulistana. Por seis meses, 16 artistas construíram um álbum inédito sob a mentoria de Edi Rock (Racionais MC) e Gaspar Z’África, em meio à tensão do território e à ameaça iminente de despejo. Poucos dias após o fim das filmagens, o Teatro de Contêiner foi interditado e demolido pela Prefeitura de São Paulo, em nome da especulação imobiliária. O filme flagra o processo criativo, as inseguranças dos participantes e a potência daquele espaço, que hoje não passa de escombros.
Cristiano Burlan, que já participou FCV com outras produções, foi comedido em sua fala: “Eu costumo falar muito pouco sobre os filmes antes da exibição, pois pode ser um tiro no pé, mas vou usar uma frase do Eduardo Coutinho: ele dizia que ‘fazia filmes sobre pessoas que não estão no Google’. Este filme talvez seja sobre isso”.
O 33° Festival de Cinema de Vitória conta com o patrocínio da Petrobras e da Vale e com o copatrocínio do Banestes, através da Lei Rouanet. Conta com o apoio da TV Gazeta, da Carla Buaiz Joias, do Canal Brasil, do Fórum dos Festivais, da Stone Milk, da Conecta Acessibilidade, da TVE Espírito Santo e do Canal Like. Conta também com o apoio cultural da Vol Service e a parceria do Sesc Espírito Santo. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte – IBCA.
