O 33º Festival de Cinema de Vitória contou em sua programação com atividades formativas na área audiovisual. Uma delas foi a masterclass Da Ideia ao Roteiro, conduzida pelo roteirista, dramaturgo e ator Leandro Soares, realizada na tarde desta sexta-feira (24) no Sesc Glória. Em uma exposição, o criador de sucessos como Vai Que Cola e Morando Sozinho provocou os participantes a refletirem sobre os mecanismos da narrativa cinematográfica, a centralidade do personagem e os desafios contemporâneos da escrita para streaming.

Logo no início, Soares abordou um tema que tem gerado apreensão no mercado audiovisual: o uso da inteligência artificial. Para ele, a IA não substitui o roteirista, mas pode ser uma aliada — desde que usada com discernimento: “Eu acho que a inteligência artificial é um estagiário genial. Ela é genial, porque ela pode buscar coisas que você demoraria horas para buscar, você precisaria de um departamento de pesquisa para buscar. E ela te ajuda, mas ela erra. Ela erra a mente, ela se atrapalha. Então eu acho que é muito bom usá-la como um assistente. Quem trabalha é você”.O roteirista revelou que identifica imediatamente quando alguém lhe envia textos gerados por IA e brincou com a possibilidade de responder à máquina com a máquina. O recado foi claro: a IA pode ajudar, mas o texto final precisa ser humano.

Soares provocou a plateia com uma pergunta simples — “O que faz um filme bom?” — e, a partir das respostas dos participantes, identificou duas palavras-chave recorrentes: personagem e emoção. Ele defendeu que, por trás de qualquer história, há sempre uma transformação emocional que conecta o público à tela e que o filme não é apenas uma associação de eventos, mas a história de uma transformação. Soares diferenciou trama (o que acontece) de jornada (o que o personagem sente e como se transforma), e destacou a importância de o público torcer pelo protagonista.

Um dos momentos mais aplaudidos foi quando Soares falou sobre a construção de personagens. Para ele, um personagem não é uma ficha descritiva, mas uma ação em movimento: “O personagem é um verbo. Ele é uma ação. Ele não tem descanso. O seu objetivo como criador é colocar o personagem mais longe possível daquilo que ele quer.” Ele usou o exemplo de Aladdin para ilustrar como uma falha — roubar — pode ser compensada por um gesto de humanidade: o protagonista divide o pão com uma criança faminta. A partir daí, o público jamais larga o personagem:  “A falha é aquilo que eu enxergo nele que supostamente é diferente de mim. A falha é o que afasta ele de mim. Mas a humanidade é aquilo que aproxima. Se o personagem é um babaca e pronto, você desliga a televisão. Mas se ele é um babaca que na primeira cena salvou a mãe dele, você vai dizer: pô, salvou a mãe dele, cara. Esse cara eu vou torcer pra ele melhorar. Eu vou torcer pra ele se transformar.” 

Ao abordar as diferenças entre cinema e streaming, Soares foi enfático sobre os impactos da nova lógica de consumo na escrita: “A economia da atenção é péssima. Ela fala sobre uma incapacidade que a gente está desenvolvendo de se concentrar nas coisas. No streaming você tem mil opções. Qual que você escolhe? Nenhuma. Fica horas rodando, não clica em nada. Porque há tanta opção que você vê o que já viu.” Segundo ele, as franquias e remakes fazem sucesso justamente porque oferecem familiaridade em um mundo de dispersão.  “O streaming mede várias coisas. Ele mede o quanto você clica, mas ele também mede quem vai até o final. Isso é a métrica mais valiosa. Se você bota um filme lá e a galera vai até o final, parabéns, roteirista, você venceu a economia da atenção.”

Soares fez um panorama das principais técnicas de roteiro disponíveis — da Poética de Aristóteles à Jornada do Herói, de Joseph Campbell, passando por Save the Cat, Story Circle e a Nutshell Technique, de Jill Chamberlain, que ele considera sua favorita: “A técnica serve para a gente se libertar. É um exercício. Você trabalha com as coisas para se chegar a resultados. Agora, é uma bobeira ficar preso na técnica, como se fosse uma lei que você tem que seguir. Ela tem que te libertar, mas ela tem que ser alguma coisa pra você se apoiar.  O propósito do roteiro não é ser publicado. O propósito do roteiro é ser filmado. Todo mundo vai buscar ali o que precisa para fazer o filme. A arte, a direção, os atores. Ele centraliza todo mundo.”

Ele também destacou as características da linguagem de roteiro: “Ela é narrativa, descritiva, objetiva. Você só consegue contar o que você vê. Ao escrever, tenta fazer um exercício de narrar só o que você está vendo, com charme, com elegância, com estilística, para trazer uma bossa, um jeito gostoso de contar a sua história.”

Soares encerrou a masterclass reafirmando sua crença de que a técnica não engessa, mas amplia as possibilidades criativas. Ele comparou o roteirista a um cozinheiro: quanto mais temperos conhece, melhor pode ser seu prato: “Não tem um jeito só de fazer arroz. Existem vários jeitos de fazer arroz. Tem com açafrão, tem com brócolis. Quanto mais temperos você conhecer, melhor seu arroz vai ficar. Até que você pode optar por usar estes e não aqueles. Você tem mais amplitude.”

O 33° Festival de Cinema de Vitória conta com o patrocínio da Petrobras e da Vale e com o copatrocínio do Banestes, através da Lei Rouanet. Conta com o apoio da TV Gazeta, da Carla Buaiz Joias, do Canal Brasil, do Fórum dos Festivais, da Stone Milk, da Conecta Acessibilidade, da TVE Espírito Santo e do Canal Like. Conta também com o apoio cultural da Vol Service e a parceria do Sesc Espírito Santo. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e ArteIBCA.  

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