Realizadores da 30ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas e da 16ª Mostra Competitiva Nacional de Longas, cujos filmes foram exibidos na quinta noite do 33º Festival de Cinema de Vitória participaram de debate na manhã desta sexta-feira (24), no Hotel Senac Ilha do Boi. Além dos representantes dos filmes em competição, estiveram presentes jornalistas e Viviane Pistache, curadora e crítica de cinema que atuou como mediadora do debate.

O encontro destacou a ousadia da curadoria em apresentar uma seleção eclética, responsável por aproximar filmes tão diversos, incluindo musicais e obras com sensibilidades queer e que valorizam aspectos regionais. Essa diversidade gerou um diálogo rico entre os filmes e o público, enriquecendo a experiência do festival e demonstrando o papel essencial do curador em construir uma programação significativa. Durante o debate, também foi ressaltada a criatividade dos cineastas brasileiros, que, apesar dos desafios de produção e distribuição, continuam a explorar novas linguagens, a representar diversas realidades e a dialogar com o público.

Acadêmicos que pesquisam musicais e cinema queer há mais de uma década, os diretores de Morfeu e Caronte, Luiz Ulian e Jocimar Dias Jr,  contaram que o projeto do curta remonta a 15 anos atrás e que, originalmente, não era um musical. Segundo eles, o filme busca trazer alegria para a temática do envelhecimento LGBTQIAPN+, apesar de seu potencial dramático. “Foi um processo de entender qual seria a dosagem desses temas todos trabalhados. Quando o Jocimar colou junto no projeto, ele falou ‘amigo, vamos fazer um musical’. E aí eu falei ‘vai ser desafiador mesmo, vamos colocar tudo que a gente sabe no filme’. Foi realmente necessário a gente estudar, entender e relembrar coisas que a gente já sabia, pensar como é que a gente vai aplicar essas coisas, mas acho que a gente conseguiu, que deu certo. Foi realmente uma coisa feita a quatro mãos”, disse o co-diretor Luiz Ulian. Os diretores também defenderam a inclusão de de cenas de sexo explícito envolvendo homens gays idosos, por desafiar o lugar ocupado culturalmente pelos corpos idosos.

O curta Samba Infinito foi representado por Rafael Teixeira, produtor do filme. No debate, ele pontuou que é  curta é a conclusão de uma trilogia de filmes do diretor Leonardo Martinelli,  e, embora considerado menos musical que duas produções anteriores, a musicalidade se manifesta no cotidiano e na coreografia urbana expressa na narrativa. O filme aborda o luto e a perda (particularmente a violência contra pessoas negras no Rio de Janeiro), mas dá dimensão coletiva às histórias individuais, evitando estereótipos. “O filme se passa nesse espaço, entre o presente e o passado, memória e a potência no presente, entre o real e a fantasia, sobretudo nessa cidade, que é esse espaço histórico, o espaço das principais manifestações políticas do presente, o espaço do carnaval, por excelência”, explicou Rafael Teixeira. 

Também presente no debate, Cícero Filho, diretor de Babaçu Love, contou que o filme nasceu do desejo dele se enxergar no cinema, fugindo dos estereótipos do Nordeste e mostrando sua própria cultura. Ele narrou que o filme levou 13 anos para ser feito, com 21 tratamentos de roteiro. A ideia nasceu da vontade de explorar a cultura do babaçu, uma palmeira abundante na região, e a persistência de artistas locais. O filme celebra a cultura nordestina, o empoderamento feminino e a busca por sonhos. O diretor defendeu que a estética é intencionalmente exagerada, colorida, humorística e melodramática, buscando provocar e desafiar a visão estereotipada do Nordeste como seco e miserável. “O Babaçu é uma mistura, é muita cor, muita informação, é uma explosão. E nasceu da necessidade de me enxergar. Eu não tinha mais nada. Eu faço cinema pra me enxergar. Desde jovem, eu sempre assistia aos filmes com temática nordestina, mas eu não falo ‘oxente’, não falo ‘mainha’. Eu não falo com esse sotaque. Minha cultura não é assim. Em cada região do Brasil, tem uma forma de comunicar que é muito bonita. E aí, eu via esse lugar vazio ali, que não estava sendo trabalhado. E aí foi onde eu fiz pesquisas profundas sobre o Babaçu, que é uma cultura formidável em torno daquela palmeira, que de tudo se extrai”.

O 33° Festival de Cinema de Vitória conta com o patrocínio da Petrobras e da Vale e com o copatrocínio do Banestes, através da Lei Rouanet. Conta com o apoio da TV Gazeta, da Carla Buaiz Joias, do Canal Brasil, do Fórum dos Festivais, da Stone Milk, da Conecta Acessibilidade, da TVE Espírito Santo e do Canal Like. Conta também com o apoio cultural da Vol Service e a parceria do Sesc Espírito Santo. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e ArteIBCA.    

Compartilhe: