A tarde da terça-feira (21) no 33º Festival de Cinema de Vitória foi marcada pela diversidade de olhares e territórios na 13ª Mostra Outros Olhares, realizada na Sala Cariê Lindenberg, 2º andar do Sesc Glória. A programação contou com os filmes Grão, de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa; Os Arcos Dourados de Olinda, de Douglas Henrique; Caldeirão, de Bruno Fernandes; Confluência dos Olhos D’Água, de Keila-Sankofa; e Eloísa Joga, de Yuri Rodrigues e Taís Melo.
Filme que abriu a sessão, Grão acompanha Leandro, um jovem que vive informalmente recolhendo a soja extraviada durante o transporte no Porto de Rio Grande, no extremo sul do Brasil. Quando a crise econômica põe em risco seu sustento, ele vaga com seu carro com o som no máximo. Noite adentro, parte em busca de companhia, mas nada sai como esperado. O curta, gravado em preto e branco, é o terceiro filme produzido pela dupla de diretores formada por ex-alunos da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), e já conquistou o Prêmio Canal Brasil de Curtas na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes e o Grande Prêmio do 35º Curta Cinema, no Rio de Janeiro. Esta última conquista qualifica o filme para concorrer a uma indicação ao Oscar 2027.

O segundo curta da sessão foi o documentário pernambucano Os Arcos Dourados de Olinda, que resgata uma história quase mítica: o embate entre a primeira prefeita comunista do Brasil e a chegada do McDonald’s à cidade de Olinda — que ficou conhecida como a primeira cidade do mundo a falir uma franquia da rede. Com um impressionante trabalho de arquivo, o filme percorre os bastidores da “Batalha de Olinda”, no início dos anos 2000, quando duas mulheres de campos políticos opostos disputaram o comando da cidade. Presente na sessão, o corroteirista do filme Arnon Hochman destacou que o filme não se compromete com a verdade factual, mas sim com a potência narrativa de uma história: “O Douglas passou, mais ou menos, junto com outras pessoas da equipe, pesquisando uns cinco anos para encontrar todo esse material. Eu entrei no finalzinho, já na parte de tentar, através do roteiro, organizar um pouco isso. E é sobre a história da primeira cidade do mundo a falir o McDonald’s, que é o que Olinda diz que é. Não é necessariamente verdade, mas documentário não é sobre verdade. Então espero que vocês gostem. Estou muito feliz de estar aqui, com outros filmes maravilhosos.”
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Na sequência, o público assistiu ao documentário potiguar Caldeirão, que traz à tona a história da comunidade homônima, no sertão do Ceará, liderada pelo beato José Lourenço na década de 1930. O curta investiga as memórias de um dos maiores movimentos messiânicos do Brasil, que foi brutalmente reprimido pela força policial em 1936, num episódio que ficou conhecido como o “Massacre do Caldeirão”. O filme revisita a memória do Caldeirão, uma história que muitos tentaram apagar, a partir do olhar dos descendentes e da paisagem do sertão, que ainda guarda as marcas daquele episódio trágico.
Depois, o documentário amazonense Confluência dos Olhos D’Água parte de um processo colaborativo com o povo Pankararu, que vive há mais de oito décadas em bairros próximos ao Rio Pinheiros, em São Paulo. A obra reposiciona o Rio Pinheiros como entidade viva para além de sua função urbana, articulando diferentes cosmologias e ativando o cinema como espaço de relação entre saberes indígenas e afro-diaspóricos, tendo a cuia como elemento ancestral comum. Presente na sessão, Uilton Oliveira, da Corpo Fechado, distribuidora do filme, falou da emoção de participar do FCV. “Confluente dos Olhos d’Água é um filme que nos convida a olhar as águas, o território e as vidas que a cidade tenta apagar. O filme aproxima progresso e ancestralidade relacionando as águas, o povo Pancaruru, a grilhagem urbana, o racismo ambiental e também a resistência dos territórios negros e indígenas. Ao reunir ancestralidade, memória e resistência, o documentário mostra que mesmo soterradas pelo asfalto, essas histórias continuam vivas.”
Fechando a mostra, o documentário paulista Eloísa Joga acompanha a trajetória de uma jovem jogadora de futebol em um contexto de transformação e descoberta. O filme aborda os afetos, os desafios e as tensões da juventude contemporânea a partir do universo esportivo . O curta retrata a juventude a partir do futebol como espaço de afeto e de afirmação dando visibilidade a histórias que escapam dos estereótipos tradicionais.
O 33° Festival de Cinema de Vitória conta com o patrocínio da Petrobras e da Vale e com o copatrocínio do Banestes, através da Lei Rouanet. Conta com o apoio da TV Gazeta, da Carla Buaiz Joias, do Canal Brasil, do Fórum dos Festivais, da Stone Milk, da Conecta Acessibilidade, da TVE Espírito Santo e do Canal Like. Conta também com o apoio cultural da Vol Service e a parceria do Sesc Espírito Santo. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte – IBCA.
