“A gente não pode virar uma cópia dos outros. A gente tem que falar sobre a nossa cultura, sobre o nosso território”, afirma Camila Morgado, homenageada nacional do 33º Festival de Cinema de Vitória (FCV), evento que conta com o o patrocínio da Petrobras e da Vale e com o copatrocínio do Banestes, através da Lei Rouanet.
Antes de receber a homenagem do 33º Festival de Cinema de Vitória, a atriz Camila Morgado atendeu a imprensa na Coletiva de Homenagem que marcou o lançamento do Caderno da Homenageada, na tarde desta segunda-feira (20). O Salão Penedo, no Hotel Senac Ilha do Boi, reuniu jornalistas e admiradores da artista para uma conversa que abordou assuntos como sua evolução artística, os desafios da estereotipagem na indústria audiovisual e a importância social das personagens que interpreta. A mediação da coletiva foi feita pelo jornalista Vitor Búrigo.
Emocionada, Camila Morgado falou das extensas entrevistas conduzidas pelos jornalistas Leonardo Vais e Paulo Gois Bastos para a construção do Caderno da Homenageada que funcionaram como um mergulho e revisão de carreira. Segundo ela, esse processo serviu para afirmar o quanto o trabalho é definidor de sua identidade pessoal. Publicação impressa que chega a sua 26ª edição, o Caderno da Homenageada traz uma reportagem sobre a trajetória artística da atriz no teatro, no cinema, na televisão e no streaming, está ricamente ilustrado com imagens de seus principais trabalhos e reúne depoimentos de personalidades a respeito da homenageada.
Segundo Camila, foi um presente o convite para ser homenageada pelo 33º FCV. “Na hora eu falei ‘poxa, mas eu só tenho 51 anos e já vou ser homenageada’. E aí depois caiu a ficha. Eu só me entendo pelo trabalho. Eu sou uma pessoa muito melhor trabalhando. E o trabalho pra mim é fundamental. A minha vida inteira é voltada para o trabalho. Eu estou agradecida, porque isso não acontece diariamente. É muito lindo estar sendo homenageada, porque me fez revisitar de onde eu vim e como foi a minha luta para chegar até aqui, como eu insisti mesmo. E eu consegui, eu estou aqui hoje sendo homenageada, coisa que eu nem imaginava. Então, é um lugar que eu não sei direito como ocupar, que eu tô aprendendo, mas é um lugar que está me fazendo muito bem, estou muito feliz”.
Ela ressaltou a importância do FCV. “O Festival de Cinema de Vitória é especial porque aqui você é muito bem acolhido e se sente em casa. A equipe inteira é afetuosa e amorosa, é uma equipe que enaltece o cinema nacional e o cinema capixaba. A Lucia Caus é uma grande admiradora das artes e do cinema. É um festival que as pessoas se reconhecem. E muita gente teve o trabalho reconhecido aqui no festival, muita gente do Espírito Santo e de fora já passou por aqui e teve o trabalho reconhecido aqui. Os festivais são muito importantes porque através deles as pessoas podem encontrar um distribuidor para o filme, podem fazer novas parcerias”.
O primeiro trabalho audiovisual de Camila Morgado foi na minissérie A Casa das Sete Mulheres, na TV Globo, dirigido por Jayme Monjardim, trabalho que a projetou nacionalmente. Na sequência, com o mesmo diretor, ela protagonizou o filme Olga, seu primeiro trabalho no cinema. Ela falou do impacto dessas estreias. “Aquilo era muito grande para mim. E foi lindo porque tive uma equipe maravilhosa me dando as mãos, todo mundo me ajudando e, aos pouquinhos, eu fui dando conta daquele personagem. Quando terminei o trabalho, eu estava muito envolvida dramaticamente pela personagem. Eu ainda não tinha me dado conta desse liga e desliga do ator, que é tão rápido. Eu era muito jovem e me emocionava muito com os personagens. Hoje tenho uma outra visão, porque a gente amadurece”.

Olga foi um grande sucesso de público e gerou grande repercussão em sua carreira ao ponto de vinculá-la ao estereótipo da personagem heroína revolucionária. “Quando a Olga foi lançada, foi um negócio que eu não estava preparada psicologicamente falando, era muito, e eu não estava entendendo essa indústria. E aí muita gente começou a me chamar para viver revolucionárias, pessoas que choravam bem. Fui percebendo, pelos roteiros que chegavam, que eu estava ficando estereotipada, as pessoas estavam me enxergando nesse lugar. E aí volto ao teatro na minha vida como pensamento. Eu falei, ‘sou uma atriz de teatro, não sou isso. Eu sou outras coisas e não posso ficar nesse lugar, porque não vai me fazer bem’. Tive o privilégio de trabalhar com pessoas muito boas no teatro. Fiz parte de uma companhia, tínhamos um repertório. Tive a sorte de estudar com o Antunes Filho. Passei pelas mãos da Marília Pera e trabalhei com o João Falcão. Tive uma formação um pouco grande que me deu um chão. Então falei não e recusei algumas coisas, e foi um período até difícil, porque quando você recusa as pessoas param de te chamar. Mas é assim a vida, a gente tem que fazer nossas escolhas”.
Ainda sobre o filme Olga, Camila destaca como esse tipo de produção contribuiu para educar as novas gerações sobre a história e enfatizou o papel social da arte. “Acho que os personagens ensinam muita gente. Eu nunca imaginei que a Olga fosse se desdobrar desse jeito. Hoje, os professores passam o filme nas escolas. Tem muito adolescente que veio falar comigo porque me assistiu e sempre pergunta, ‘você ficou careca mesmo?’. Eu fico muito orgulhosa de saber que fiz um personagem que me ensinou a importância do Estado democrático, o quanto a democracia é o melhor lugar que a gente tem justamente para isso: para a função da arte, para criar diálogo, para trazer reflexão e para trazer senso crítico. A arte sem o social não existe. A função do artista é social, por causa do senso crítico, para a gente estabelecer ponte de diálogo, para a gente ficar melhor. E não tem que ter senso comum, tem que ter descenso. A arte é o lugar onde a gente pode, onde é permitido. Portanto a gente tem que enaltecer a arte. A arte é fundamental para a nossa cultura, para a nossa autoralidade, para o nosso cinema independente. A gente não pode virar uma cópia dos outros. A gente tem que falar sobre a nossa cultura, sobre o nosso território, sobre a nossa região”.
Segundo Camila o seu engajamento em projetos é feito com base em histórias que ela acredita poder ajudar a contar, que são pertinentes e que a levarão a explorar lugares ainda não tentados. “Eu me atraio por histórias que vão me levar para algum lugar que eu ainda não tentei, histórias que eu acho pertinentes a serem contadas. Às vezes, coisas muito divertidas. Normalmente, eu vou pelo roteiro, mas também vou pela direção, vou por um amigo. Eu dou mais valor ao que está sendo dito, se é que eu posso contribuir com alguma coisa. Mas isso, sem comprometimentos, se vai ficar bom ou ruim, eu não faço ideia. Mas eu me atrevo. A arte é sempre um salto, a gente não sabe se aquilo vai dar certo, mas a gente se joga”.
O 33° Festival de Cinema de Vitória conta com o patrocínio da Petrobras e da Vale e com o copatrocínio do Banestes, através da Lei Rouanet. Conta com o apoio da TV Gazeta, da Carla Buaiz Joias, do Canal Brasil, do Fórum dos Festivais, da Stone Milk, da Conecta Acessibilidade, da TVE Espírito Santo e do Canal Like. Conta também com o apoio cultural da Vol Service e a parceria do Sesc Espírito Santo. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte – IBCA.
