A primeira noite de exibições do 33º Festival de Cinema de Vitória, que aconteceu no último sábado (18), teve o brilho da produção audiovisual no Espírito Santo, apresentado na 15ª Mostra Foco Capixaba, no Teatro Glória (Sesc Glória), com quatro filmes na programação: Cinema, Poema e Gangrena, de Gustavo Guilherme da Conceição; Superfície, de Carolina Campista; Liberdade de Morar, de Penha Souza; e Salve, Rainha!, de Estevão Ribeiro e Fabio Carvalho. A sessão foi encerrada com a exibição de  A Fabulosa Máquina do Tempo, documentário de Eliza Capai e o primeiro filme da 16ª Mostra Competitiva Nacional de Longas.

Filme que abriu a mostra, Cinema, Poema e Gangrena afirma o cinema como espaço de memória e invenção. Esse curta rompe com o modo mais convencional de narrativa do gênero para investigar as camadas de silêncio e violência que marcaram o período da ditadura a partir da própria imagem fílmica. O diretor Gustavo Guilherme da Conceição explicou que o filme “é resultado de uma pesquisa que durou quase dois anos em busca de imagens registradas principalmente em longas-metragens realizados no Espírito Santo durante o período da ditadura militar no Brasil. A intenção era tentar entender através dessas imagens um pouco o que era a repressão naquele período e como isso repercute se projeta nos dias de hoje, tentando  entender um pouco do presente e, por favor, pensar no futuro”.

A primeira ficção da noite, Superfície, traduz em imagens os afetos, os ritos e as tensões da adolescência, aproximando o espectador de experiências ao mesmo tempo íntimas e coletivas. O curta se destaca pela brevidade e pela potência visual, explorando a superfície das relações juvenis para acessar camadas mais profundas de subjetividade. A diretora Carolina Campista destacou que o curta “nos provoca a pensar sobre liberdade. Liberdade de sermos quem nós somos, sem nenhum constrangimento. Liberdade de viver sem medo. Mas principalmente liberdade de escolha de meninas e mulheres. Escolhas referentes aos nossos corpos, nossos desejos, nosso presente, nosso futuro. E nós precisamos estar atentas e vigilantes o tempo todo, porque não só em momentos de crise temos os nossos direitos questionados. E isso acontece de forma constante, infelizmente.”

Já em Liberdade de Morar, a imagem documental mergulha no cotidiano da luta de mulheres por moradia. Esse curta faz o registro da Ocupação Chico Prego, no Centro de Vitória, e foi produzido por estudantes do Curso Técnico de Rádio e TV do CEET Vasco Coutinho. A diretora Penha Souza, que também é arquiteta, contou que de suas motivações para realizar o curta-metragem. “Liberdade de Morar nasceu de um desejo meu de falar sobre questões sociais, do urbanismo e da arquitetura. Eu tenho uma admiração muito grande pelo movimento das ocupações. Estando no Centro de Vitória, todo mundo sabe que aqui tem muitos edifícios vazios e a gente tem a ocupação Chico Prego que ocupa um desses edifícios. A gente está em um período muito importante para repensar as pessoas que nos representam, porque tem muita gente precisando de moradia, e moradia é um direito constitucional”. 

Outra ficção da mostra, Salve, Rainha! desloca o olhar social para as tensões e afetos que emergem dos espaços coletivos. O curta tem como protagonista uma mulher trans em busca por reconstruir seus laços familiares e, nessa jornada, resolve concorrer ao cargo de Rainha da Banda de Congo do falecido pai. Em sua fala, o diretor Estevão Ribeiro contou como foi a mobilização para realizar o curta. “Salve, Rainha! é sobre a volta pra casa. Eu sou uma pessoa que mora há quase 20 anos e não há um dia que eu não pense no Espírito Santo e essa história nasceu dessa ligação e de uma conversa que eu tive com o Fabio Carvalho. Foi um trabalho de dois dias com uma equipe maravilhosa com muitas pessoas estreantes em suas funções e que fez um trabalho muito lindo”. 

O outro diretor do filme, Fabio Carvalho, contou que inicialmente havia sido convidado para ser ator no filme. “Quando o Estevão me mostrou o roteiro, eu pirei. Ele queria que eu fosse ator. Falei, ‘não, ator não vou ser’.  O que aconteceu aqui foi um ajuntamento,  que é uma palavra que os quilombolas falam no Norte do Espírito Santo. Então fizemos o ajuntamento com essa equipe maravilhosa para fazer um filme lindo com o maior respeito a nossa maior tradição cultural, identidade cultural e musical, que é o congo. Esse filme vai trazer uma coisa que a gente precisa muito que é pertencimento cultural”.

Após a exibição dos curtas, foi exibido o documentário A Fabulosa Máquina do Tempo, primeiro filme da 16ª Mostra Competitiva Nacional de Longas. Esse longa-metragem tem como protagonistas um grupo de meninas de Guaribas, no interior do Piauí, uma cidade que foi o berço do programa social Bolsa Família. O filme usa a pergunta: “Se você tivesse uma máquina do tempo, iria para o futuro ou para o passado?” como dispositivo para as personagens criarem cenas em diálogo com suas próprias realidades e com as experiências de suas mães e avós.

Quem esteve presente na sessão representando o longa foi a produtora Mariana Carpenter Genescá. Para ela, o filme é uma “jóia preciosa, acho que é o momento mais luminoso da carreira da Eliza. É um filme que fala de infância, de sonhos, de brincadeira e de temas muito sérios a partir do olhar de meninas da cidade de Guaribas, no Piauí. Então, eu tô aqui hoje com essa enorme responsabilidade de representar a Elisa, de representar toda a equipe técnica maravilhosa do filme.” Ela também falou sobre a relação da diretora com a cidade de Vitória. “A Elisa cresceu aqui em Vitória, viveu sua infância aqui. Aqui está grande parte da sua família, dos seus amigos, das pessoas que ela sempre sonhou em poder mostrar esse filme.”

O 33° Festival de Cinema de Vitória conta com o patrocínio da Petrobras e da Vale e com o copatrocínio do Banestes, através da Lei Rouanet. Conta com o apoio da TV Gazeta, da Carla Buaiz Joias, do Canal Brasil, do Fórum dos Festivais, da Stone Milk, da Conecta Acessibilidade, da TVE Espírito Santo e do Canal Like. Conta também com o apoio cultural da Vol Service e a parceria do Sesc Espírito Santo. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e ArteIBCA

Fotos: Melina Furlan – Sérgio Cardoso – Vikki Dessaune/ Acervo Galpão IBCA

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