Uma líder espiritual que nasceu no Paraguai, veio para o Brasil e liderou seu povo em uma caminhada sagrada de mais de dois mil quilômetros em busca da Terra Sem Males. Essa é a história de A Caminhada Sagrada de Tatatxi Ywareté, longa-metragem do diretor indígena Wera Djekupe, bisneto da liderança retratada na produção, selecionado para a 16ª Mostra Competitiva Nacional de Longas do 33º Festival de Cinema de Vitória. O filme será exibido no dia 20 de julho de 2026, às 19h, no Sesc Glória.

Tatatxi Ywareté foi uma grande líder espiritual do povo Guarani, que dedicou sua vida a curar, orientar e guiar suas famílias rumo à Terra Sem Males. “Ela curou as pessoas, ajudou as pessoas, com remédio, com orações, com suas rezas. E ela teve visões. Para ela foi revelada a caminhada, seguindo a mesma direção que os ancestrais seguiram muito antes da colonização”. A caminhada, que percorreu diferentes estados do Brasil, tinha um propósito espiritual profundo, segundo Wera Djekupe: “Ela já tinha todo o conhecimento da espiritualidade, de como o espírito vem para a terra, o que o corpo deve fazer nesse mundo, de como voltar para de onde o espírito veio”.

A jornada de Tatatxi Ywareté atravessou gerações e fronteiras. Durante a ditadura militar, os Guarani foram levados para Minas Gerais, para um local chamado Fazenda Guarani, onde o narrador nasceu “no meio do caminho”. De volta ao Espírito Santo, ela se uniu aos Tupinikim na luta pela demarcação de seu território e fundou a casa de reza onde as famílias poderiam viver em tranquilidade

A seleção do filme para o festival capixaba é motivo de grande alegria e orgulho para Wera Djekupe, que vê na exibição uma oportunidade de valorizar a história do povo Guarani em seu próprio território. O diretor destaca que o filme tem um duplo propósito: para os jovens indígenas, é uma ferramenta de valorização cultural; para o público não indígena, uma oportunidade de desmistificar preconceitos.

“A ideia do filme é mostrar para os jovens e para as crianças das aldeias para eles saberem porque estamos aqui, valorizar a si mesmo e valorizar a sua cultura. Mas também para mostrar a nossa aldeia para o público não indígena, mostrar que nós não estamos lá só morando no mato. A gente quer é seguir nossa cultura, nossa crença, nossa forma de conexão espiritual com a divindade.”

Djekupe ressalta a importância da autorrepresentação indígena no cinema: “Os indígenas, aos poucos, estão tendo seu espaço de mostrar, através do filme, através do livro, escrevendo a sua própria história e o próprio indígena dirigindo a história do seu povo. A gente pesquisa, faz um trabalho sério para fazer um filme e mostrar para o público.”

O filme é fruto de um processo colaborativo que envolveu anciões, jovens e pesquisadores ao longo de quase dois anos de trabalho. Wera Djekupe conta que, embora soubesse parte da história por ter acompanhado a bisavó desde criança, precisou buscar os mais velhos para aprofundar o conhecimento. “Convidei os mais velhos da aldeia, que caminharam com ela, que sabem a história dela com mais clareza e profundidade.”

A pesquisa incluiu documentos da época, gravações existentes, escritos de antropólogos e o acervo do fotógrafo Rogério Medeiros, que documentou a chegada dos Guarani ao Espírito Santo.

As filmagens percorreram seis estados: Rio Grande do Sul (onde a caminhada começou), Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. A equipe viajou mais de dois mil quilômetros para registrar os locais onde Tatatxi Ywareté fez suas paradas e acendeu seu fogo sagrado.

Durante as gravações, a equipe viveu momentos de profunda emoção. Em Santa Catarina, realizaram um verdadeiro “reavivamento cultural”, com danças, rituais de cura e o preparo da paçoca de milho sagrado. Em uma aldeia no Rio Grande do Sul, a equipe chegou em um momento de luto. Uma jovem liderança havia falecido e a comunidade estava em choque. Ao apresentarem o projeto e a história de Tatatxi Ywareté, a avó do falecido líder reconheceu a trajetória da espiritualista de sua juventude: “Quando chegamos com a novidade de que a gente estava ali para gravar a história da Tatatxi Ywareté, a avó da pessoa que faleceu tinha conhecimento sobre ela. Então fizemos uma dança, uns cânticos e todo mundo dançou junto com a gente. A gente levou a alegria para eles.”

O diretor também afirma estar na expectativa para assistir à reação do público do 33º FCV:  “Estamos ansiosos para exibir esse filme, para sentir as emoções das pessoas, especialistas, pessoas que conhecem o filme, que trabalham com audiovisual. A gente fica nessa curiosidade. É um filme que aborda um monte de coisas que aconteceram nessa caminhada, que não foram fáceis.”

33° Festival de Cinema de Vitória conta com o patrocínio da Petrobras e da Vale e com o copatrocínio do Banestes, através da Lei Rouanet. Conta com o apoio da TV Gazeta, da Carla Buaiz Joias, do Canal Brasil, do Fórum dos Festivais, da Stone Milk, da Conecta Acessibilidade, da TVE Espírito Santo e do Canal Like. Conta também com o apoio cultural da Vol Service e a parceria do Sesc Espírito Santo. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte – IBCA.  

33º Festival de Cinema de Vitória
16ª Mostra Competitiva Nacional de Longas
Quando: 20 de julho de 2026, 19h 
Local: Sesc Glória
Entrada Gratuita
A Caminhada Sagrada de Tatatxi Ywareté
Wera Djekupe (Marcelo Guarani)
(DOC, ES, 75’, 2025)
Classificação indicativa: Livre

Sinopse: Tatatxi Ywarete, bisavó do diretor do filme, foi uma líder xamânica guarani que, guiada por um sonho, caminhou 35 anos em busca de um lugar para viver em paz com seu povo. Sua caminhada teve início nos anos 1940, na região das Missões Jesuíticas (no Rio Grande do Sul) e terminou no litoral de Aracruz (ES), onde hoje vivem seus descendentes. Entre memória familiar, espiritualidade e luta pelo território, o filme revela o legado de uma mulher cuja bravura continua a inspirar gerações.

Foto: Amãdau Mirim

Compartilhe: