O que acontece quando o universo das “tradwives” — mulheres que dedicam sua vida ao lar, ao marido e à família — encontra o terror feminista? É essa a inquietação que move Virtuosas, longa-metragem da diretora Cíntia Domit Bittar estrelado por Bruna Linzmeyer, selecionado para a 16ª Mostra Competitiva Nacional de Longas do 33º Festival de Cinema de Vitória. Essa ficção, que será exibida na noite do dia 19 de julho no Teatro Glória, aborda temas como o uso da religião pelo patriarcado e pela política, e o negacionismo, em uma narrativa que explora possibilidades não tão óbvias de terror com personagens mulheres.
O primeiro tratamento do roteiro de Virtuosas foi escrito em 2020, durante a pandemia do Covid-19, motivado pelo interesse da diretora em abordar a complexa classe média brasileira e o fenômeno das “mulheres virtuosas”, que ela identifica como a versão brasileira do conceito internacional de “tradwives”. “Conheci o contexto das mulheres virtuosas a partir de intensa pesquisa que faço há anos nesse universo. Entendi que é o mais próximo aqui no país do conceito de ‘tradwives’ difundido internacionalmente, e a ausência de discussões mais amadurecidas sobre isso no contexto brasileiro me causa agonia.”
Cíntia Domit Bittar reflete sobre a importância de criar personagens mulheres que ocupem espaços para além dos clichês. “Todo esse caldo possibilita explorar possibilidades não tão óbvias de terror feminista, com personagens mulheres ambíguas, inteligentes, violentas e também trágicas e cheias de falhas — características que já renderam ao cinema excelentes personagens homens, que permeiam o imaginário popular. Há muito espaço para personagens mulheres ocuparem para além de vítima, mocinha ou vilã. Ou, nos clichês do gênero, sobrevivente, possuída, mãe do demônio. E assim vai.”

A diretora destaca que muitas cenas e diálogos são representações fiéis à realidade, mesmo que pareçam surreais para quem desconhece esse segmento das mulheres virtuosas. “Uma coisa bem específica que me chamou atenção foi a predileção delas por certas cores, tipos de roupa, decoração, remetendo a uma moda modesta e conservadora, mas com bastante personalidade e elegância também. São dados que viraram referências diretas pra construção visual do filme, junto com a direção de arte, nos cenários, caracterização e figurino.”
O processo de produção de Virtuosas foi intenso e desafiador. Foi o primeiro longa de ficção da Novelo Filmes e também o primeiro da diretora como realizadora. O projeto foi aprovado em 2020 e só pôde ser filmado anos depois, devido à pandemia e suas consequências. A história precisou ser adaptada às restrições orçamentárias da inflação, o que levou a produção a realizar a maior parte do filme em apenas uma locação, em Florianópolis, e com elenco bastante reduzido. “Filmar na cidade sede da produtora, onde moramos, traz vantagens e também desafios. Por um lado, ajudou demais na logística e nos apoios. Por outro, enfrentamos desafios bem concretos como o clima, que aqui é bastante instável, e montar equipe, porque era um período em que muita gente boa estava ocupada com outras produções.” Apesar das dificuldades, a equipe conseguiu reunir um time ótimo, e o elenco chegou bastante ensaiado para as três semanas de filmagem, o que trouxe agilidade ao ritmo das diárias.
Um dos momentos mais marcantes das filmagens foi a cena de abertura, que reuniu mais de 130 figurantes mulheres para compor a plateia da palestra da coach Virgínia Heinzel, personagem de Bruna Linzmeyer. “Dirigir esse tanto de gente, todo mundo no clima de evento de autoajuda cristã para mulheres, foi ao mesmo tempo surreal e assustador, pois estávamos diante de uma massa muito realista. Ali a gente sentiu muito a força da tradução da pesquisa no filme.”

Quanto à seleção para o 33º Festival de Cinema de Vitória, a diretora destaca a importância do festival abraçar o cinema de gênero, tanto ao dar espaço para o filme quanto ao homenagear Rodrigo Aragão, referência do terror nacional. “Isso mostra a conexão do evento com o público brasileiro, que tem uma preferência forte por esse gênero, e reconhece o terror como importante pra sustentabilidade do audiovisual — porque, mesmo em meio a tantas crises do nosso setor, ele tem formado um público numeroso, consistente e apaixonado nos últimos anos.”
A expectativa para a exibição no Espírito Santo é grande. “Tô bem curiosa, sinceramente. Tenho bastante expectativa de ver como o público do festival vai reagir: se vai reconhecer essas mulheres ‘virtuosas’ no seu próprio entorno, se vai sentir o desconforto e a angústia que a gente construiu, se vai rir com o humor ácido que também está bem presente. Me interesso demais pela percepção do público porque encaro esse filme também como uma espécie de experimento social e de comunicação. A reação das pessoas às cenas acaba transformando o próprio filme em cada sessão.”
O 33° Festival de Cinema de Vitória conta com patrocínio da Vale e o copatrocínio do Banestes, através da Lei Rouanet, Ministério da Cultura, Governo Federal. Conta com o apoio da TV Gazeta, da Carla Buaiz Joias, do Canal Brasil, do Fórum dos Festivais, do Sheraton Vitória Hotel, da Conecta Acessibilidade, da TVE Espírito Santo e do Canal Like. Conta também com o apoio cultural da Vol Service e a parceria do Sesc Espírito Santo. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte – IBCA.
33º Festival de Cinema de Vitória
16ª Mostra Competitiva Nacional de Longas
Quando: 19 de julho de 2026, 19h
Local: Sesc Glória
Entrada Gratuita
Virtuosas
Cíntia Domit Bittar
(FIC, Cor, 86’, 2025)
Classificação indicativa: 16 anos
Sinopse: Um retiro VIP para mulheres em busca de sua melhor versão se transforma em uma jornada absurda e perigosa.
Fotos: Divulgação
