Em 1887, na Vila de Regência, no Espírito Santo, o pescador e catraieiro Bernardo José dos Santos lançou-se cinco vezes ao mar revolto para salvar mais de cem pessoas do naufrágio do Cruzador Imperial Marinheiro. Condecorado pelo Governo Imperial, o Caboclo Bernardo tornou-se herói e passou a integrar o imaginário da comunidade local. É esta memória que Espírito São – O Lugar de Toda Fé, documentário dirigido por Matheus Costa e Breno Chamon, resgata em uma abordagem sensorial e metafórica. Selecionado para a 30ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas do 33º Festival de Cinema de Vitória, o filme será exibido no dia 23 de julho de 2026, no Sesc Glória.
A história de Caboclo Bernardo é o centro do filme. No entanto, a equipe escolheu não contá-la de forma convencional. Em sua narrativa, quem conduz essa memória é o próprio Rio Doce, testemunha da passagem de Bernardo por aquela terra que é elemento fundamental para a vida e a identidade de Regência. A ideia surgiu de uma extensa troca entre direção e roteiro, com o desejo de abordar a fé de maneira alusiva e tangencial, sem tratá-la de forma explícita ou vinculá-la necessariamente a uma religião. “Ao mesmo tempo, buscávamos exaltar uma forma particular de espiritualidade: aquela que nasce da abnegação em favor do bem-estar do outro, do gesto de quem age sem pensar em si e sem esperar reconhecimento ou recompensa. Uma fé própria do herói popular”, conta Matheus.
O diretor faz uma reflexão sobre o legado do herói popular: “Mais do que simplesmente narrar um feito heroico, esperamos que o filme desperte uma reflexão sobre aquilo que permanece depois da passagem de uma pessoa pelo mundo. Caboclo Bernardo sobrevive não apenas pelo salvamento que realizou, mas pela maneira como seu gesto atravessou o tempo e passou a fazer parte da identidade de uma comunidade.”
O processo de produção do filme envolveu visitas de pré-produção a Regência para compreender a história de Caboclo Bernardo a partir do ponto de vista dos moradores da vila. Mais do que reconstruir apenas os acontecimentos históricos, a equipe buscava entender de que maneira Bernardo permanece vivo na memória coletiva daquela comunidade. Esses depoimentos, aliados à pesquisa histórica, serviram de base para a construção da narração em off que conduz o espectador ao longo do filme. “Desde o início, nossa intenção era contar essa história de maneira mais metafórica do que literal. Essa escolha se refletiu tanto no texto quanto na construção visual, na escolha dos planos e na própria decupagem das cenas.”
Ao todo, as filmagens duraram cinco dias, com uma equipe reduzida — um processo intenso, principalmente pelas complexidades de realizar um filme praticamente todo em locações externas, trabalhando com luz natural e com diversas cenas dentro do Rio Doce. A equipe dependia constantemente das condições do tempo, da posição do sol, do movimento das águas e das possibilidades oferecidas por cada espaço. “Também é importante destacar a participação de seu Zé de Sabino, nosso protagonista, que colaborou imensamente para a realização do filme. Figura emblemática de Regência e profundo conhecedor daquele território, ele nos guiou pelo Rio Doce e incorporou o nosso Caboclo Bernardo de maneira muito intuitiva, generosa e fluida. Sua presença trouxe ao filme uma verdade que dificilmente conseguiríamos alcançar de outra forma.”

Um dos momentos mais marcantes da produção aconteceu durante a filmagem da cena do salvamento. A equipe tinha pouquíssimo tempo para realizá-la, pois estava trabalhando com os últimos minutos de luz antes do pôr do sol. Era uma cena complexa, feita dentro do mar, e tudo tinha que ser registrado antes que a luz desaparecesse. “Apesar de toda essa pressão, seu Zé de Sabino entregou uma atuação espetacular logo no primeiro take. Foi um daqueles momentos raros em que todas as coisas parecem se alinhar: a luz, o movimento da água, a atuação e a energia da equipe. A intensidade que aparece na cena é, em grande parte, consequência da urgência real que estávamos vivendo naquele instante.”
A seleção para o 33º FCV é muito significativa para a equipe do filme. “Essa seleção ganha uma dimensão ainda mais especial porque estamos apresentando uma história profundamente ligada ao território capixaba. Acreditamos na força do cinema local para preservar memórias, lançar novos olhares sobre personagens da nossa história e sensibilizar o público por meio de narrativas que nascem próximas de nós, mas que podem alcançar questões universais. Um filme só se completa verdadeiramente quando encontra o público, e estamos muito curiosos para perceber como as pessoas irão se relacionar com essa narrativa, especialmente por se tratar de uma abordagem mais sensorial, contemplativa e metafórica da história de Caboclo Bernardo. Será muito especial apresentar o filme dentro do Festival de Cinema de Vitória, diante de um público que possui uma relação direta com o território, com o Rio Doce e, em muitos casos, com a própria memória de Caboclo Bernardo.”
O 33° Festival de Cinema de Vitória conta com patrocínio da Vale e o copatrocínio do Banestes, através da Lei Rouanet, Ministério da Cultura, Governo Federal. Conta com o apoio da TV Gazeta, da Carla Buaiz Joias, do Canal Brasil, do Fórum dos Festivais, do Sheraton Vitória Hotel, da Conecta Acessibilidade, da TVE Espírito Santo e do Canal Like. Conta também com o apoio cultural da Vol Service e a parceria do Sesc Espírito Santo. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte – IBCA.
33º Festival de Cinema de Vitória
30ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas
Quando: 23 de julho de 2026, 19h
Local: Sesc Glória
Entrada Gratuita
Espírito São – O Lugar De Toda Fé
Matheus Costa e Breno Chamon
(DOC, Cor, ES, 14’, 2025)
Classificação indicativa: 12 anos
Sinopse: O olhar turvo de um rio é a voz que narra a trama sobre os viventes da superfície através de um recorte sobre como o rio os enxerga diante das histórias que pairam no imaginário popular dos habitantes da margem. Fé e vida comum sob o mesmo filtro: os turvos sentimentos de um rio vivo. O curta é uma ficção experimental que sugere uma visão poética, dramática e mitológica através da perspectiva do Rio, personagem interpretado por Max, sobre um salvamento de uma embarcação à deriva em sua foz e a morte do pescador que executou o salvamento, interpretado por Sabino.
Fotos: Divulgação
