Poucos dias após o término das filmagens do documentário Entre o Sucesso e a Lama, o Teatro de Contêiner Mungunzá foi interditado e demolido pela Prefeitura de São Paulo. Em nome da especulação imobiliária, o espaço que durante meses abrigou um projeto de cultura Hip Hop com pessoas da Cracolândia e a participação de importantes nomes do rap nacional — Edi Rock (Racionais MC) e Gaspar Z’África (Z’África Brasil) — foi destruído. Dirigido por Cristiano Burlan, esse longa-metragem flagra em cinema direto esse processo criativo e as tensões daquele território. Selecionado para a 16ª Mostra Competitiva Nacional de Longas do 33º Festival de Cinema de Vitória, esse filme será exibido no dia 24 de julho de 2026, no Sesc Glória.

O convite para realizar o filme partiu de Marcos Felipe, um dos gestores do Teatro de Contêiner Mungunzá, que chamou Cristiano Burlan para acompanhar, ao longo de seis meses em 2025, o projeto artístico e pedagógico homônimo. A proposta era formar artistas no território da Cracolândia por meio das linguagens do Hip Hop, com aulas de canto, MC, rima, grafite, DJ e Break, além da composição de músicas e da gravação de um álbum inédito com mentoria de Edi Rock e Gaspar Z’África. Ao ouvir sobre a iniciativa, o diretor logo enxergou nela a potência de um filme. “Na nossa conversa disse a ele que isso era um filme e que eu adoraria filmar como cinema direto e foi assim que ele nasceu.”

O processo de produção se estendeu por seis meses de filmagem, cobrindo todas as etapas do projeto: as aulas, a composição das músicas, as inseguranças e conquistas dos participantes, a gravação em estúdio e o show final. “Eu busquei no cinema direto o caminho para mover a câmera no set. Uma câmera que observasse e acompanhasse, mas que ganhasse intimidade com os personagens, com o território.” O diretor descreve a experiência como transformadora para toda a equipe: “São artistas incríveis, inteligentes e muito talentosos. Foi um dos projetos mais desafiadores que vivi. Porque além de tudo, estávamos enfrentando a tensão do território, com o iminente despejo do Teatro de Contêiner Mungunzá onde o projeto estava acontecendo.”

Finalizadas as gravações, poucos dias depois, o Teatro de Contêiner Mungunzá foi demolido pela Prefeitura de São Paulo, em meio a um contexto de especulação imobiliária. Restavam apenas os escombros do espaço que, dias antes, era palco de intensa movimentação artístico-cultural. Burlan relata esse episódio como uma das marcas mais dolorosas do processo. “Queria compartilhar, na verdade, algo muito triste e dilacerante. Poucos dias depois que paramos de filmar, o Teatro de Contêiner Mungunzá foi interditado e destruído. Foi devastador ver aquele espaço tão pulsante, vivo e cheio de potência ser demolido pela Prefeitura de São Paulo em nome da especulação imobiliária. A cidade de São Paulo vive um dos momentos mais difíceis para a cultura, muitos teatros sendo destruídos, editais e leis de apoio à cultura sendo paralisados. Acho que nesse momento, o filme é muito necessário, como um grito que tenta alertar o horror dos nossos tempos.”

A seleção para o 33º Festival de Cinema de Vitória carrega um significado especial para o cineasta, que já havia participado da edição anterior com o filme A Mãe. “Eu tenho muito respeito e admiração pelo Festival de Cinema de Vitória, um dos festivais mais longevos do país. Agora retorno ao festival com este filme, é um presente para nós. Estamos muito felizes de ir ao Espírito Santo, na torcida para que o público capixaba se sinta tocado pelo filme.”

O 33° Festival de Cinema de Vitória conta com patrocínio da Vale e o copatrocínio do Banestes, através da Lei Rouanet, Ministério da Cultura, Governo Federal. Conta com o apoio da TV Gazeta, da Carla Buaiz Joias, do Canal Brasil, do Fórum dos Festivais, do Sheraton Vitória Hotel, da Conecta Acessibilidade, da TVE Espírito Santo e  do Canal Like. Conta também com o apoio cultural da Vol Service e a parceria do Sesc Espírito Santo. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte – IBCA.

33º Festival de Cinema de Vitória
16ª Mostra Competitiva Nacional de Longas
Quando: 24 de julho de 2026, 19h 
Local: Sesc Glória
Entrada Gratuita
Entre o Sucesso e a Lama
Cristiano Burlan 
(DOC, SP, 86’, 2026)
Sinopse: Dezesseis artistas constróem um álbum inédito, sob mentoria de grandes nomes do RAP Nacional, enquanto enfrentam o paradoxo de viver e criar em um lugar que a cidade tenta fazer desaparecer: a Cracolândia e a Favela do Moinho. O Teatro de Contêiner, onde ensaiam, está sob ameaça de despejo. Nessa encruzilhada, cada música se torna uma contra-narrativa.

Fotos: Divulgação

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