Entre a memória da fome que assombrou suas mães e os sonhos de um futuro que ainda está por vir, as meninas de Guaribas, no sertão do Piauí, ensaiam seus primeiros passos na travessia da infância para a adolescência. É nesse território de contrastes que se passa A Fabulosa Máquina do Tempo, longa-metragem da diretora Eliza Capai, selecionado para a 16ª Mostra Competitiva Nacional de Longas do 33º Festival de Cinema de Vitória. A obra, que terá sua pré-estreia comercial no circuito de cinemas marcada para a exibição no festival, será apresentada no dia 18 de julho de 2026, no Sesc Glória.
Em 2013, Eliza Capai ganhou uma bolsa da Agência Pública de Jornalismo Investigativo para realizar uma pesquisa e reportagem sobre os impactos nas relações de gênero do programa Bolsa Família do Governo Federal. Ela escolheu então viajar para a cidade piloto do Bolsa Família, Guaribas, no sertão piauiense, que já teve um dos piores IDHs do Brasil. “Conversei com mulheres de minha idade que diziam ter vivido a escravidão, sem comida, sem chinelo, só com uma muda de roupa. E com suas filhas, meninas bem nutridas que frequentavam a escola. Saí de lá com a certeza de que iria voltar.” Em 2021, ela retornou para realizar a pesquisa para o filme, graças ao apoio do Fundo de Gotemburgo. “Além de reencontrar aquelas famílias, me deparo com as novas crianças. Além de comer e estudar, elas eram tiktokers e tinham acesso a muitos outros mundos. Parecia que eu havia entrado em uma máquina do tempo, e viajado para um futuro muito mais distante que aqueles oito anos que separaram as duas viagens.”
Em 2024, graças à coprodução firmada pela Amana Cine, da parceira Mariana Genescá, com a Globo Filmes e Globo News, Eliza vai novamente a Guaribas com uma pequena equipe que incluiu Carol Quintanilha na fotografia e Luisa Lemgruber no áudio. Juntas, ministraram uma oficina de audiovisual para meninas de sete a doze anos. Essa atividade tinha como um dos objetivos entender as melhores formas de contar esta história pelo olhar dessas crianças.
Algumas das meninas já haviam sido conhecidas pela diretora em 2021 — eram as crianças tiktokers que ela gravou dançando na praça da igreja da cidade. Uma delas, Manu, a cineasta havia fotografado em 2013, quando ela tinha apenas um mês de vida. Ao decidirem fazer a viagem, a diretora de produção, Clarice Rios, foi para Guaribas e selecionou outras crianças. “Acabamos com núcleos diferentes de crianças, algumas vizinhas e primas, mas com diversidade entre elas. Tinham crianças do primeiro ano até a quinta série. Naquele momento, a produção deu entrada em todos os alvarás para poder voltar e filmar com tranquilidade, além de estabelecer contato com as escolas e com o Sesc Ler Guaribas, que foi o grande parceiro local.”
Durante as oficinas, os assuntos que eram trazidos e a forma das meninas reagirem a eles foram inspirando a diretora a definir como gravar o filme. “Naturalmente algumas delas foram aparecendo como mais protagonistas, seja pela forma de contar a história (como o caso da Manuzinha, que se tornou a narradora do filme), seja por situações que se desenrolaram na frente da câmera (como a Sophia que, ao entrevistar a mãe, descobre que crianças morrem e sai dali para brincar de ser zumbi).”

Filmar com crianças foi uma aventura. A equipe era composta por três pessoas, filmando com 15 crianças — e o desafio de equilibrar liberdade criativa com a necessidade de silêncio durante as gravações era constante. “Ter um espaço de liberdade para que elas pudessem propor coisas e brincar e, ao mesmo tempo, precisar de silêncio de todas que não estivessem na frente da câmera para filmar, era complexo (risos).” Na primeira viagem, em 2024, ficaram seis semanas. Na segunda, em 2025, onde Eliza fez a fotografia (porque a Carol não tinha agenda) e foram com a Clarice Rios de produtora, ficaram duas semanas. “Estávamos em uma realidade muito diferente da nossa, em boa parte dos momentos sem água encanada e muito calor, por exemplo.”
O trabalho foi intenso: além de filmar, logar e fazer as artes das cenas criadas pelas crianças, a equipe refletia diariamente sobre o que estava sendo mais interessante, qual caminho estético-narrativo seguir, quais histórias mais interessantes surgiram e qual criança deveriam acompanhar mais. “Era intenso e, claro, as crianças apareciam em nossa casa nos momentos de descanso porque queriam ver o que tínhamos filmado ou bater papo — já que é uma cidade muito pequena em que elas transitam sozinhas pelas ruas.”
Eliza reflete sobre o vínculo criado com as crianças. “Sermos só três nos deu uma grande intimidade com as crianças, éramos suas adultas confidentes, as pessoas grandes que olhavam para elas com curiosidade e admiração. Isso gerou vínculos muito bonitos que, acredito, se refletem no filme. Vínculos que permitiram entradas delicadas em suas casas, na igreja. Que se esticaram também para a confiança de suas famílias, que nos deixavam levá-las para filmar em casas abandonadas ou em cima da Serra das Confusões. Tudo correu de forma muito segura e parceira.”
A diretora também compartilha uma preocupação ética que atravessou todo o processo. “Em todo filme que faço, fico sempre lembrando que, se por um lado busco um arco narrativo e a melhor forma de contar esta história, por outro, aquelas que chamamos de ‘personagens’ no cinema são pessoas que sentirão os impactos do filme — seja depois do lançamento, seja durante as filmagens. Sempre tive essa preocupação, mas agora que as ‘personagens’ são crianças, este cuidado ganhou novas proporções. Ele esteve presente em todas as etapas, desde como tentar não excluir as crianças que serão menos protagonistas na história final durante as filmagens, até como abrir mão de certas cenas que fariam o filme melhor, mas que poderiam ter impactos negativos na vida destas crianças.”
A seleção do filme para o 33º FCV foi recebida com alegria pela diretora, especialmente por ser a cidade onde cresceu. “Pra mim, tem um sabor ainda mais especial porque é a cidade que eu cresci e que me formou um tanto como pessoa. Levar esse novo filme com a história das meninas de Guaribas para aí é uma grande honra. Sempre fico curiosa em ver como o público de Vitória, que é sempre tão carinhoso com os meus filmes, vai receber essa obra. Espero que a gente tenha uma troca muito grande com o público. Além disso, essa sessão vai ser muito importante, pois marca nossa pré-estreia comercial, com a entrada no circuito de cinemas.”
O 33° Festival de Cinema de Vitória conta com patrocínio da Vale e o copatrocínio do Banestes, através da Lei Rouanet, Ministério da Cultura, Governo Federal. Conta com o apoio da TV Gazeta, da Carla Buaiz Joias, do Canal Brasil, do Fórum dos Festivais, do Sheraton Vitória Hotel, da Conecta Acessibilidade, da TVE Espírito Santo e do Canal Like. Conta também com o apoio cultural da Vol Service e a parceria do Sesc Espírito Santo. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte – IBCA.
33º Festival de Cinema de Vitória
16ª Mostra Competitiva Nacional de Longas
Quando: 18 de julho de 2026, 19h
Local: Sesc Glória
Entrada Gratuita
A Fabulosa Máquina do Tempo
Eliza Capai
(DOC, RJ, 72’, 2026)
Classificação indicativa: Livre
Sinopse: Numa pequena cidade do sertão do Piauí, as meninas brincam entre o passado miserável de suas mães e seus sonhos fantásticos de futuro. Ali, onde o homem ainda é o gigante da mulher, elas se aventuram na travessia da infância para o adolescer.
Fotos: Divulgação
