Dez anos depois do crime ambiental que despejou mais de 40 milhões de metros cúbicos de lama contaminada na bacia do Rio Doce, o curta-metragem um rio não é – selecionado para a 30ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas do 33º Festival de Cinema de Vitória – mergulha na vila de Regência, em Linhares (ES), para sondar o que restou das relações entre humanos e não-humanos. O filme, assinado pelas diretoras Amanda Miranda e Yurie Yaginuma, será exibido no dia 22 de julho de 2026, às 19h, no Sesc Glória.
O filme surgiu das relações e amizades entre as diretoras e a equipe, ancorado em um território específico e urgente. “Nós diretoras, Amanda e Yurie, fizemos algumas viagens para lá com os amigos que compõem a equipe do filme. A nossa própria aproximação como amigas aconteceu quase simultaneamente à nossa aproximação com a vila, e começamos a conversar sobre a possibilidade de fazer um filme sobre esses atravessamentos.”
A produção do documentário aconteceu em 2025, 10 anos após o desastre ambiental. “Pensamos em construir uma narrativa que vislumbrasse um tempo futuro na história do Rio Doce em Regência, que não se limitasse às perdas e aos fantasmas do desastre, mas que também ecoasse a memória de um crime que hoje facilmente é esquecida”, afirmam as diretoras, que completam: “Dez anos após a morte do Rio, estávamos curiosas para ver quais seres haviam resistido, o que havia se transformado, como as pessoas viviam e o que elas pensavam do passado e estimavam para o futuro.”

As diretoras destacam a amizade como base fundamental do processo de criação do projeto. “Fica na cabeça uma frase do cineasta Jonas Mekas, que insiste que o cinema não tem 100, 130 anos de idade, o cinema é muito anterior. É a história invisível dos amigos se reunindo, ele diz. Sem saber, nos alinhamos a isso com ‘um rio não é’, nosso primeiro filme juntas.”
O filme foi gravado com duas câmeras muito diferentes – uma Cybershot da Sony e uma Sony A7III – e a montagem buscou ressaltar essas diferenças. “Duas diretoras mulheres, duas câmeras, dois olhares, que produzem constantemente terceiros lugares.”
O processo de realização do filme envolveu um longo período de montagem após as gravações que tiveram um cunho bem experimental. “Nosso plano de filmagem eram listas de pessoas, espaços e situações que ficamos buscando durante uma semana. Estivemos sempre conscientes de nosso estrangeirismo em Regência e sabíamos que precisávamos ser respeitosas e ouvir e observar bastante, antes de dizer algo sobre aquele lugar. Decidimos revelar o dispositivo do documentário no filme, e nossa dualidade de direção, como uma maneira de manter a honestidade do ‘olhar forasteiro’ sobre o que estávamos vendo e ouvindo.”
“Escrevemos o roteiro basicamente depois das filmagens, na hora de montarmos. Mas não foi exatamente um roteiro, nós nos propomos diversos exercícios de escrita e remontagens com as falas dos entrevistados, até que chegamos ao ‘roteiro virtual’ que acompanha visualmente as imagens do filme para estruturar a montagem.”
O 33° Festival de Cinema de Vitória conta com patrocínio da Vale e o copatrocínio do Banestes, através da Lei Rouanet, Ministério da Cultura, Governo Federal. Conta com o apoio da TV Gazeta, da Carla Buaiz Joias, do Canal Brasil, do Fórum dos Festivais, do Sheraton Vitória Hotel, da Conecta Acessibilidade, da TVE Espírito Santo e do Canal Like. Conta também com o apoio cultural da Vol Service e a parceria do Sesc Espírito Santo. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte – IBCA.
