A 30ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas, que será realizada de 19 a 23 de julho durante o 33º Festival de Cinema de Vitória, reúne 15 curtas-metragens de dez estados brasileiros. A seleção da mostra mais longeva do festival revela uma dualidade entre o segredo da intimidade confessional e o elogio das veias abertas da vida pública, resultando numa constelação de curtas que traduzem a força estética e política da atual safra do cinema nacional. As sessões dessa mostra acontecem sempre às 19 horas.
Os curadores Flávia Cândida, Viviane Pistache e Waldir Segundo destacam que “na esteira de obras que gritam miudinho, cada filme é uma voz que se abre, um relato íntimo que, ao mesmo tempo, expõe e cura”. Em tempos de tantas urgências, os filmes reunidos funcionam como testemunhos: falam de dores, de memórias, de desejos e de mundos que se reinventam. “Testemunho aqui ganha a força da confissão e da denúncia, bem como da oportunidade de comungar do tempo histórico em que estas obras estão ganhando vida na tela desta edição do festival”, completam.
SESSÃO UM – AFETO, FRONTEIRAS E GINGA

A mostra abre com a ficção capixaba Irmã, de Anderson Bardot, descrita pelos curadores como “uma confidência de afeto, de laços familiares que sustentam e ferem”. No filme, as personagens Iara e Elisa estão conectadas pelas águas de uma cachoeira ancestral — as mesmas águas que batizaram seus pais na fé evangélica. Os curadores destacam o filme como “um gesto de resistência que é simbolicamente parricida para que a população trans sobreviva ao avanço de uma teocracia violenta”.

Na ficção paranaense Fronteriza, de Nay Mendl e Rosa Caldeira, a irmandade latino-americana é encarnada pelo encontro de dois irmãos na Tríplice Fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina. Lucca, um jovem homem trans da periferia de São Paulo, viaja em busca do pai que nunca conheceu e encontra Diego, um paraguaio que vive na fronteira e o apresenta à região. Juntos, eles descobrem semelhanças e diferenças em seus modos de vida que vão além dos binarismos de gênero, identidade e território.

A ficção goiana Tião Personal Dancer, de Aristótelis Tothi, tem como protagonista um dançarino profissional que faz seus atendimentos em casas de dança. Sobre esse filme, os curadores destacam que “a mise-en-scène do flerte e da libido é atravessada pela idade de uma geração que driblou os interditos que violaram o pleno direito de exercício da sexualidade”.
SESSÃO DOIS – SUPERAÇÃO, DEFICIÊNCIA E DENÚNCIA

As diretoras Julia Uliana e Natália Dornelas trazem “experiências de ruptura que atravessam diretamente o corpo, narradas com linguagem fragmentada que ecoa tanto o fim quanto à possibilidade de recomeço” na ficção o capixaba O Que Faço Com Isso Agora que Acabou?. Nesse curta, duas atrizes confrontam suas memórias ao gravarem um filme sobre câncer. Durante o processo, elas se deparam com o dilema: isso é mesmo um filme sobre a doença? Os curadores apontam que o curta “tem uma arquitetura bem engenhosa de enfrentar dores e dilemas com deboche e metalinguagem, provando que o cinema pode ser solidário no câncer”.

A ficção gaúcha Pequeno London, de Márcio Picoli e Victor Di Marco, traz “uma senha de hackeamento do cinema brasileiro com o manifesto por um Cinema Def que está alfabetizando noutros paradigmas a cinefilia brasileira”. London tem uma deficiência e um pequeno desejo: o feto de sua mãe. Os curadores afirmam que “o curta tem a malandragem de trazer debates difíceis como gravidez, diagnósticos e abortos com a pureza das crianças”.

A mostra continua com o documentário roraimense A Pele do Ouro, de Marcela Ulhoa e Yare Perdomo. O filme revela a condição da mulher no garimpo, onde, assim como a terra, tudo é revirado e explorado. Nessa produção a protagonista Patri escreve, narra e atua a partir de seus diários íntimos revisitando memórias marcadas pela infância na Venezuela e pelos riscos assumidos na busca do sonhado ouro na Amazônia brasileira. Sobre esse filme os curadores afirmam que “a confissão é dura: a exploração sexual aparece como ferida exposta, e o documentário se torna espaço de denúncia e escuta, numa aliança necessária entre a protagonista em sua diáspora amazônida e a direção, num cinema que relembra a força das mulheres latinoamericanas na fronteira com a Venezuela”.
SESSÃO TRÊS – VIOLÊNCIA, THRILLER E ECOCÍDIO

“Gravidez e violência emergem de forma visceral em Mercado Central, de Tássia Dhur, tendo como palco um açougue onde uma mulher nasce com sede de sangue dos machistas”. Essa ficção maranhense acontece em um cenário insalubre de um mercado no centro da cidade onde as pessoas estão desaparecendo sem deixar rastros. Aos poucos, em meio a um clima de mistério, é revelado o real motivo dos acontecimentos.

A produção capixaba Assalto, de PH Martins é “um thriller seco e preciso, como um retrato contundente da violência cotidiana”. No interior do Espírito Santo, uma dupla de irmãos decide entrar no mundo do crime para salvar a família das dívidas. Com lutas coreografadas, carros em movimento e maquiagem de efeitos especiais, o curta promete levar ao público uma experiência de gênero intensa.

A animação fluminense A Tragédia da Loba Guará, de Kimberly Palermo, tem a ausência do lar afetivo e ambiental como centro da narrativa. Após perder tudo o que tinha, uma sentimental lobo-guará vaga pelo Brasil em busca de um novo lar. Nesse filme, “a protagonista faz da violência ecocida o começo de uma jornada improvável, mas semeadora de liberdade política”, destacam os curadores.
SESSÃO QUATRO – WESTERN, FLORESTA E MEMÓRIA

“A juventude negra alagoana se vale do western em Ajude os Menor, de Lucas Littrento e Janderson Felipe, em que as regras do gênero dão munição aos trabalhadores da construção civil diante da canalhice patronal”. O curta é ambientado em um prédio em construção onde um entregador almoça com amigos pedreiros e observa o conflito do engenheiro com o mestre de obras.

A resistência indígena na aldeia urbana é o coração da produção fluminense Floresta do Fim do Mundo, de Denilson Baniwa e Felipe Bragança. Nessa ficção, Suely, uma mulher indígena, divide seus dias entre um pequeno apartamento em uma grande cidade e sonhos nos quais se comunica com uma floresta. Os curadores observam que a protagonista “amarga o isolamento na capital carioca, apesar da vizinhança solidária, o companheiro de boemia jukebox e o cotidiano numa cooperativa de reciclagem”. O curta é o resultado da união fértil entre o fantástico e as encantarias e faz a força da mitologia Baniwa prevalecer a partir da trajetória de sua protagonista.

A produção capixaba um rio não é, de Yurie Yaginuma e Amanda Miranda, é descrita como a “memória poética de território e pertencimento, em que a voz Rio Doce se faz ouvir não como um narrador póstumo, mas como um personagem em estado de esperança convalescente”. No ano em que completam dez anos desde o maior crime ambiental já visto na região, esse documentário chega à vila de Regência, localizada na foz do Rio Doce, para escutar os moradores, a chuva, o vento e a presença sutil dos seus corpos no espaço.
SESSÃO CINCO – ESPIRITUALIDADE, MÚSICA E MEMÓRIA QUEER

O curta capixaba Espírito São – O Lugar de Toda Fé, de Matheus Costa e Breno Chamon, sugere uma visão poética, dramática e mitológica através da perspectiva do Rio Doce e da memória do Caboclo Bernardo. O olhar turvo de um rio é a voz que conduz o espectador por um salvamento de uma embarcação à deriva em sua foz e a morte do pescador que executou o salvamento, sob o filtro dos turvos sentimentos de um rio vivo. Segundo os curadores, o filme apresenta “Um rio que se propõe testemunha até do que não viu, na boa fé do que escuta. Entre firmamento e presságio, o rio ecoa a coragem do Caboclo Bernardo”.

Na ficção fluminense Morfeu e Caronte, de Luiz Ulian e Jocimar Dias, um trisal de idosos gays lida com a proximidade da morte de um deles, que foi diagnosticado com demência. À medida que os sintomas avançam, as fronteiras entre sonho e realidade se tornam difusas. O curta revisita “os clássicos musicais das chanchadas enaltecendo a memória gay que foi apagada em seu protagonismo de um dos ciclos mais populares do cinema brasileiro”. Assim a narrativa é construída como se fosse um extravagante número musical embalado por sambas de outrora, uma reapropriação queer, homoerótica e não monogâmica.

Outro musical fluminenses, Samba Infinito, de Leonardo Martinelli, aborda a morte e desaparecimento de crianças negras na dispersão do carnaval. Durante o Carnaval carioca, um gari enfrenta o luto pela perda da irmã enquanto cumpre suas obrigações de trabalho. Em meio à folia dos blocos de rua, ele encontra uma criança perdida e decide ajudá-la. Nas palavras dos curadores, trata-se de um filme “anti-apoteótico a partir de quem realmente tem as chaves da cidade: os garis, os griots encarnados na pele de Gilberto Gil e os foliões vivos ou encantados na pele de Camila Pitanga”.
O 33° Festival de Cinema de Vitória conta com o patrocínio da Petrobras, da Vale e com o copatrocínio do Banestes, através da Lei Rouanet, Ministério da Cultura, Governo Federal. Conta com o apoio da TV Gazeta, da Carla Buaiz Joias, do Canal Brasil, do Fórum dos Festivais, da Stone Milk, da Conecta Acessibilidade, da TVE Espírito Santo e do Canal Like. Conta também com o apoio cultural da Vol Service e a parceria do Sesc Espírito Santo. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte – IBCA.
33º Festival de Cinema de Vitória
30ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas
Quando: de 19 a 23 de julho, 19h
Local: Teatro Glória (Sesc Glória)
Entrada Gratuita
30ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas
Sessão Um: Domingo – 19 de Julho
- Irmã (Anderson Bardot, FIC, ES, 25’)
- Fronteriza (Nay Mendl, Rosa Caldeira, FIC, PR, 20’)
- Tião Personal Dancer (Aristótelis Tothi, FIC, GO, 23’)
Sessão Dois: Segunda-feira – 20 de julho
- O Que Faço Com Isso Agora Que Acabou? (Julia Uliana e Natália Dornelas, FIC, ES, 14’)
- Pequeno London (Victor Di Marco, Márcio Picoli, FIC, RS, 15’)
- A Pele do Ouro (Marcela Ulhoa, Yare Perdomo, DOC, RR, 15’)
Sessão Três: Terça-feira – 21 de julho
- Mercado Central (Tássia Dhur, FIC, MA, 16’)
- Assalto (PH Martins, FIC, ES, 16’)
- A Tragédia da Lobo-Guará (Kimberly Palermo, ANI, RJ, 18’)
Sessão Quatro: Quarta-feira – 22 de julho
- Ajude os Menor (Janderson Felipe, Lucas Litrento, FIC, AL, 15’)
- Floresta do Fim do Mundo (Denilson Baniwa, Felipe M. Bragança, FIC, RJ, 25’)
- um rio não é (Yurie Yaginuma, Amanda Miranda, DOC, ES, 18’)
Sessão Cinco: Quinta-feira – 23 de julho
- Espírito São – O Lugar de Toda Fé (Matheus Costa, Breno Chamon, DOC, ES, 14’)
- Morfeu e Caronte (Luiz Ulian, Jocimar Dias Jr., FIC, RJ 13’)
- Samba Infinito (Leonardo Martinelli, FIC, RJ, 15’)
