Um grupo de pessoas grandes e gordas, orgulhosas de si mesmas, ocupando o palco do Teatro Glória. É essa a imagem que os diretores Erly Vieira Jr e Melina Galante querem ver na pré-estreia fora de competição de Admirável Mundo Gordo, série documental capixaba que encerra o 33º Festival de Cinema de Vitória, no dia 25 de julho, no Sesc Glória. A obra coloca artistas gordos do Espírito Santo no centro de suas poéticas e propõe um novo olhar sobre corpos transbordantes.
A série, que tem cinco episódios com cerca de 25 minutos cada, está em fase de negociação com plataformas de TV e streaming. A previsão é que seja lançada ainda no segundo semestre de 2026. A ideia da série nasceu das experiências vividas pelos próprios diretores, ambos gordos, em um mundo que muitas vezes é desenhado para que corpos como os deles não caibam — não apenas fisicamente, mas também em termos de construções sociais, que naturalizam a gordofobia. “Isso vai desde as lojas de roupa que não oferecem tamanhos maiores, excluindo parte significativa da população, até os minúsculos banheiros em bares e restaurantes ou a roleta do ônibus que é sempre um tormento para pessoas com corpos maiores”, conta Erly.
Os diretores apontam que as imagens veiculadas pela mídia em geral atrelam pessoas gordas a representações de solidão, fraqueza, sedentarismo e insatisfação — ou as reduzem a mero alívio cômico. “Para nós, que somos pessoas gordas e convivemos com tantas outras pessoas gordas no nosso cotidiano, são imagens que não correspondem à realidade. Onde estão, no audiovisual brasileiro, imagens não-estereotipadas das pessoas gordas? Cadê personagens de filmes e novelas amando e sendo amadas, cadê imagens de pessoas gordas sendo felizes com suas vidas?”, questiona Vieira.

A diretora Melina Galante reflete sobre a ausência de representações humanizadas de pessoas gordas no audiovisual brasileiro: “Se a gente parar um pouquinho pra pensar nas representações audiovisuais de pessoas gordas, quando não são negativas ou cômicas, elas são extremamente raras. São pouquíssimas as obras que trazem personagens gordas ou grandes a partir de uma ótica humanizada.” Ela cita como marco o filme O Dia Em que te Conheci, de André Novais Oliveira, uma comédia romântica brasileira protagonizada por um casal de pessoas gordas. “Não dá pra ser ingênuo e achar que essa ausência de corpos gordos e grandes nas representações do audiovisual está desconectada de uma cultura hegemônica de corpos magros, da indústria da moda, da estética e por aí vai. É tudo muito conectado e retroalimentado”, enfatiza a diretora.
Por outro lado, os diretores perceberam que, nas mais diversas modalidades artísticas, uma série de pessoas coloca seus corpos gordos de forma instigante e criativa no centro de suas poéticas. Segundo Erly Vieira Jr, artistas gordos atuam nos mais diversos campos e suas obras reverberam e transformam outras pessoas: “Isso move e motiva outras pessoas gordas a não terem vergonha de si mesmas e descobrirem a potência dos seus corpos e de suas existências. Daí a ideia de pensar num documentário seriado que, entendendo o mundo como um território que abarca os mais diversos tipos de corpos, apresentaria pessoas gordas como admiráveis, capazes de transformar a si mesmas e a outras pessoas.”
SÉRIE
A proposta da série é falar da diversidade de possibilidades que corpos gordos podem ter no mundo, partindo de experiências estéticas diversas no campo artístico e também de formas de se reinventar no cotidiano. Erly revela que uma das motivações mais pessoais veio da falta de referências positivas na adolescência. “Uma coisa que nos marcou muito, especialmente na entrada da adolescência, que é uma época em que começam a se intensificar uma série de cobranças sobre as pessoas gordas a respeito de seus corpos, é que faltaram referências positivas na mídia em geral, que pudessem fazer com que a travessia dessa fase fosse algo menos opressor.”
Melina acrescenta que a intenção é justamente poder chegar ao máximo de pessoas possível e mostrar que é possível sim pensar um futuro, um projeto de vida em que ser gordo possa ser algo positivo e tão natural quanto qualquer tipo de corpo. “A gente não tá negando questões de saúde, muito pelo contrário, esse nem é o foco da série. Mas estamos justamente buscando mostrar possibilidades que façam as pessoas gordas olharem para si mesmas e enxergarem potência, beleza, amor, habilidades e talentos, para além de uma lógica gordofóbica que só oprime implacavelmente. Nosso sonho é que a série chegue a adolescentes e jovens gordos/as/es de cada canto do país e que possa fazer um pouco daquilo que a mídia nunca fez por nós, ou seja, mostrar que não estamos sozinhos e que não devemos sentir vergonha de nossos corpos grandes e transbordantes.”
ENTREVISTADOS

A seleção dos entrevistados para a série começou com artistas capixabas que a equipe já acompanhava e admirava. Durante a pré-produção, a busca se ampliou para outros agentes culturais do Espírito Santo que se entendem e se colocam no mundo como pessoas gordas e grandes, além de trabalharem as potências de seus corpos em suas obras. “Chegamos a uma lista com quase 50 nomes! Algumas pessoas vieram da nossa própria rede de contatos, outras foram indicadas pelos próprios entrevistados”, conta Melina. Após pré-entrevistas e a definição dos episódios e seus temas, a lista foi enxugada. “Ao final, foram quase 30 entrevistas gravadas pra série e absolutamente todo mundo faz parte!”
A identidade visual da série é colorida e vibrante por uma razão muito clara. Uma das principais inspirações foi a artista visual capixaba Elisa Queiroz, pioneira em colocar seu corpo gordo em suas obras de forma poderosa, sensual, lúdica e bem-humorada. “Conheci Elisa ainda muito jovem, quando ainda éramos estudantes da UFES, e esse encontro mudou totalmente a forma como eu me via e compreendia meu próprio corpo”, relembra Erly. A diretora de arte, Joyce Castello, propôs que a obra de Elisa fosse uma inspiração para os cenários, abordando os aspectos lúdicos e exuberantes das formas arredondadas e coloridíssimas. A identidade visual da pós-produção, assinada por Glauber Viana, também seguiu em diálogo com a direção de arte da série. “Se as existências gordas podem ser empolgantes e admiráveis, a visualidade da série tinha que ser assim também.”
A pré-estreia no 33º FCV carrega um significado especial para a equipe. Erly Vieira Jr. e Melina Galante tiveram seus primeiros filmes exibidos no festival, e retornar agora com uma série que se passa no Espírito Santo e apresenta artistas locais é uma forma de fechar um ciclo. “Mostrar o primeiro episódio aqui, além da importância de apresentar a proposta da série para o público capixaba, e de reforçar o ponto de vista inovador e urgente que estamos apresentando, é também a possibilidade de dar visibilidade a esse conjunto de pessoas tão incrível que nos permitiu retratar suas vidas nessa série, afirma Erly que complementa: “O público de Vitória é um dos mais calorosos e antenados dentre os festivais brasileiros. Ver a série nascer para esse público, ali, promete ser uma experiência inesquecível.”
O 33° Festival de Cinema de Vitória conta com patrocínio da Vale e o copatrocínio do Banestes, através da Lei Rouanet, Ministério da Cultura, Governo Federal. Conta com o apoio da TV Gazeta, da Carla Buaiz Joias, do Canal Brasil, do Fórum dos Festivais, do Sheraton Vitória Hotel, da Conecta Acessibilidade, da TVE Espírito Santo e do Canal Like. Conta também com o apoio cultural da Vol Service e a parceria do Sesc Espírito Santo. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte – IBCA.
33º Festival de Cinema de Vitória
Sessão Especial: Admirável Mundo Gordo
Erly Vieira Jr e Melina Galante
Classificação Indicativa: 14 anos
Quando: 25 de julho de 2026, 19h30 (fora de competição)
Local: Sesc Glória
Entrada Gratuita
Fotos: Melina Galante (1)/ Junior Batista (2 e 3)
