Memória e afetividade em um musical extravagante e experimental que coloca no centro um trisal gay intergeracional e a luta contra o esquecimento. Essa é a proposta de Morfeu e Caronte, curta-metragem dos diretores Luiz Ulian e Jocimar Dias Jr., selecionado para a 30ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas do 33º Festival de Cinema de Vitória. A obra, que conta com Bayard Tonelli (ex-Dzi Croquettes), será exibida no dia 23 de julho de 2026, às 19h, no Sesc Glória.
Morfeu e Caronte nasceu do fascínio dos diretores pelos musicais no cinema e suas potencialidades queer. O curta-metragem reúne as principais inquietações que moveram as suas pesquisas em torno desse gênero cinematográfico durante toda a última década, seja em seus escritos acadêmicos, seja em obras cinematográficas pregressas. O roteiro, que inicialmente seria sobre um casal de idosos gays, foi se transformando até chegar à ideia de um trisal. No centro da trama estão Zito, acometido pela doença de Alzheimer, e seus dois companheiros, que cuidam dele até o fim. A narrativa é regida por duas figuras mitológicas: Morfeu, o deus dos sonhos, e Caronte, o barqueiro que conduz as almas para o além-morte.
Os diretores destacam a importância de narrativas sobre velhices gays que fogem do senso comum. “A ideia inicial de contar uma história de um casal de idosos gays, um deles acometido pelos sintomas da doença de Alzheimer, foi aos poucos se transformando na vontade de contar a trajetória de um trisal gay intergeracional irreverente e apaixonado, cujo amor multiplicado por três também se reflete em cuidado triplicado até o fim da vida de um deles.” Para isso, eles se inspiraram em práticas como a musicoterapia para idosos com Alzheimer. “Queríamos contar essa história através da abordagem de um musical extravagante sem deixar de ser experimental, buscando inspiração inclusive em estratégias de tratamento como a musicoterapia em idosos com Alzheimer, em que a música cumpre um papel fundamental de reconexão, mesmo que temporária e evanescente, da pessoa com suas memórias afetivas.”

O filme foi filmado em outubro de 2025, e os trabalhos de edição e finalização se completaram na primeira metade de 2026. As primeiras ideias para o curta remontam a cerca de dez anos e, depois de três anos de tentativas em diferentes editais, finalmente foi produzido com recursos da Lei Paulo Gustavo. Desde a concepção inicial até o roteiro final, a história mudou bastante, novos personagens e elementos estético-narrativos foram agregados, “mas o sumo da ideia original se manteve: contar uma história sobre velhices LGBTQIAPN+ para além da solidão e abandono que vêm à mente no senso comum, pensando em vivências inspiradas em dados reais, de auto-organização desses idosos vivendo diferentes arranjos afetivos/amorosos que expressassem desejo, companheirismo e cuidado”, contam os diretores.
A três semanas da data de iniciarem as filmagens, o elenco do filme ainda não estava completamente fechado. Com sorte e empenho da equipe, os atores foram encontrados e os ensaios, embora rápidos, foram intensos e produtivos. “No fim das contas, para o nosso alívio, deu tudo certo, e foi realmente fundamental termos encontrado atores tão maravilhosos como Marco Canonici e Tony Reis, e tido a imensa sorte de contar com a disponibilidade de agenda, boa vontade e entrega do nosso protagonista Bayard Tonelli, um ex-Dzi Croquettes e lenda viva da história LGBTQIAPN+ brasileira, que topou viajar do Rio de Janeiro para São Paulo e entrar de cabeça em um personagem tão desafiador. A troca e a química instantânea entre eles fez toda a diferença para o resultado do nosso filme.”
O filme está começando sua trajetória por festivais: antes de chegar ao Espírito Santo, passará por sua estreia mundial no 50º Frameline – Festival LGBTQ+ de San Francisco e por sua estreia nacional no Cine Esquema Novo, em Porto Alegre. Os diretores aguardam com grande interesse a resposta do público do 33º FCV. “Estamos ansiosos para saber como vai ser a acolhida do filme pelo público capixaba, sempre tão caloroso, e estaremos lá para ver o filme coletivamente e discutir sobre ele nos debates e rodas de conversa.”
Para Luiz Ulian, a seleção no 33º FCV é uma validação importante, especialmente como realizador estreante. “Para nós é uma honra imensa a seleção no 33º Festival de Cinema de Vitória, uma janela fantástica e bastante querida, que não apenas compila parte significativa do melhor do cinema brasileiro contemporâneo, como envolve um circuito de pessoas, encontros e afetos que são importantes para nossa prática de pesquisa e trabalho no audiovisual.” Jocimar Dias Jr. destaca sua relação afetiva com FCV: “Nesse caso, gostaria de acrescentar meu carinho especial pelo Festival de Cinema de Vitória por sempre ter acolhido meus curtas anteriores – o meu primeiro curta, Ensaio Sobre Minha Mãe, que passou na Mostra Corsária na época, lá em 2014, e meu curta anterior, Vollúpya (co-direção Éri Sarmet), que em 2024 participou da Mostra Competitiva Nacional de Curtas e recebeu um prêmio de melhor curta pelo júri da crítica.”
O 33° Festival de Cinema de Vitória conta com patrocínio da Vale e o copatrocínio do Banestes, através da Lei Rouanet, Ministério da Cultura, Governo Federal. Conta com o apoio da TV Gazeta, da Carla Buaiz Joias, do Canal Brasil, do Fórum dos Festivais, do Sheraton Vitória Hotel, da Conecta Acessibilidade, da TVE Espírito Santo e do Canal Like. Conta também com o apoio cultural da Vol Service e a parceria do Sesc Espírito Santo. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte – IBCA.
33º Festival de Cinema de Vitória
30ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas
Quando: 23 de julho de 2026, 19h
Local: Sesc Glória
Entrada Gratuita
Morfeu e Caronte
Luiz Ulian e Jocimar Dias Jr.
(FIC, Cor, RJ, 13’, 2026)
Classificação indicativa: 16 anos
Sinopse: Um trisal de idosos gays lida com a proximidade da morte — Zito, que foi diagnosticado com demência, e seus dois amantes, Morfeu e Caronte. À medida que os sintomas avançam, as fronteiras entre sonho e realidade se tornam difusas: Zito extravasa seus desejos, revisita suas memórias e recebe os cuidados de seus companheiros como se sua vida fosse um extravagante número musical embalado por sambas de outrora.
Fotos: Divulgação
