Uma carta de amor e despedida às experiências e aprendizados que só a Tríplice Fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina poderia proporcionar. É com essa premissa que Fronteriza, curta-metragem dos diretores Nay Mendl e Rosa Caldeira, foi selecionado para a 30ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas do 33º Festival de Cinema de Vitória. A obra, que investiga memórias, histórias e afetos atravessados por esse território multicultural, será exibida no dia 19 de julho de 2026, às 19h, no Sesc Glória.
A ideia para o filme Fronteriza surgiu da vivência de Nay Mendl na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), em Foz do Iguaçu, região da Tríplice Fronteira – Brasil, Paraguai e Argentina. Foi nesse território tão multicultural, complexo e rico em contradições que nasceu o desejo de investigar as memórias, histórias e afetos que atravessam esse lugar. “Durante o desenvolvimento do Trabalho de Conclusão de Curso, começou a tomar forma a concepção do filme como uma carta de amor e despedida às experiências e aprendizados que só aquela fronteira poderia proporcionar.”
No curta-metragem os diretores buscam olhar para os elementos históricos que definiram a região: “O projeto busca olhar para as marcas deixadas por acontecimentos históricos que moldaram a região, como a Guerra da Tríplice Aliança, a construção de Itaipu durante o período das ditaduras militares, a exploração da natureza e os processos de apagamento e marginalização dos povos originários, especialmente os Guarani.” Paralelamente, o filme também analisa os espaços entre as fronteiras: “Ao mesmo tempo, Fronteriza nasce da necessidade de refletir sobre os espaços entre as fronteiras: de gênero, de nacionalidade, de território, de performance. É um filme interessado em como nossas identidades e relações são construídas a partir desses atravessamentos.”
Os diretores também tiveram o cuidado de tratar a representação das pessoas trans com naturalidade para além da identidade: “Desde o início, também houve o desejo de naturalizar a representação trans para além da sua condição identitária, construindo uma personagem que ama, busca sua família e vive conflitos humanos que extrapolam o fato de ser trans como narrativa central e única do personagem.”
Viabilizado graças a recursos de um edital público, o filme reuniu uma equipe de diferentes países e, da escrita inicial à estreia, levou cinco anos para ficar pronto. “O filme é fruto das políticas públicas de educação e cultura. Foi realizado a partir de um edital de curtas-metragens de baixo orçamento da SPCine, que possibilitou reunir uma equipe formada por pessoas de diferentes territórios: São Paulo, Foz do Iguaçu, Ciudad del Este, Asunción, além de colaboradores de Cuba, Venezuela, Bolívia e Colômbia. O apoio da UNILA e dos estudantes do curso de Cinema foi fundamental em todas as etapas.”

As filmagens aconteceram no Brasil, no Paraguai e no espaço simbólico do “entre-dois”: a Ponte da Amizade. Já a finalização do filme ocorreu em Cuba, durante o período em que a produtora dos diretores, Maloka Filmes, esteve em formação na Escuela Internacional de Cine y TV (EICTV).
Ao longo das filmagens, apareceram alguns obstáculos: “Enfrentamos desafios para filmar em espaços turísticos e comerciais da região. A cena da bicicleta na Ponte da Amizade exigiu uma verdadeira operação de guerrilha, já que se trata da fronteira entre dois países e de uma ponte que nunca pára devido ao intenso fluxo comercial. Gravamos durante a madrugada, monitorando o movimento por câmeras ao vivo, em uma experiência cheia de adrenalina.”
Um momento emocionante das filmagens foi nas Cataratas do Iguaçu, especialmente para um dos atores do elenco: “Chegamos ainda de madrugada e pudemos assistir ao nascer do sol naquele cenário impressionante. Foi especialmente marcante porque um dos nossos atores, Diegoló, morador da fronteira, nunca havia visitado as Cataratas. Isso revela uma contradição comum em cidades turísticas: espaços promovidos para visitantes internacionais que permanecem inacessíveis para quem vive ali.”
Os diretores destacam o arranjo e a confluência linguística advindos da diversidade étnicas e de nacionalidades da equipe do filme : “Uma das características mais especiais do nosso set foi o ‘portuñol selvagem’ como língua oficial. Estávamos entre pessoas de diferentes nacionalidades e, naquele território, a linguagem é viva: nasce do encontro entre português, espanhol, guarani, jopara e tantas outras formas de falar. O portuñol atravessou todo o processo, da pré-produção à finalização.”
A seleção para o festival capixaba é especialmente significativa para os diretores: “Em 2020 também fomos selecionados para o festival e recebemos o prêmio de melhor curta-metragem com Perifericu, porém, por conta da pandemia, não conseguimos comparecer presencialmente. Então estamos muito contentes de manter essa relação e estarmos novamente na programação esse ano. Estamos muito animados para conhecer mais a cidade de Vitória e sua relação com esse festival tão importante”.
Eles também afirmam estarem curiosos para ver como o público capixaba receberá o filme: “Nosso filme tem uma temática bastante universal, porém situado em uma realidade de fronteira bastante específica do interior do Paraná, em Foz do Iguaçu, então é sempre interessante ver como cada região do Brasil e do mundo reage a essas questões. Temos certeza que vai ser uma grande estreia no Espírito Santo!”.
O 33° Festival de Cinema de Vitória conta com patrocínio da Vale e o copatrocínio do Banestes, através da Lei Rouanet, Ministério da Cultura, Governo Federal. Conta com o apoio da TV Gazeta, da Carla Buaiz Joias, do Canal Brasil, do Fórum dos Festivais, do Sheraton Vitória Hotel, da Conecta Acessibilidade, da TVE Espírito Santo e do Canal Like. Conta também com o apoio cultural da Vol Service e a parceria do Sesc Espírito Santo. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte – IBCA.
33º Festival de Cinema de Vitória
30ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas
Quando: 19 de julho de 2026, 19h
Local: Sesc Glória
Entrada Gratuita
Fronteriza
Nay Mendl e Rosa Caldeira
(FIC, Cor, PR, 20’, 2025)
Classificação indicativa: Livre
Sinopse: Lucca, um jovem homem trans da periferia de São Paulo, viaja até a fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina em busca do pai que nunca conheceu. Ao chegar, conhece Diego, um paraguaio que vive na fronteira e o apresenta à região de uma forma que Lucca jamais imaginou. Juntos, eles descobrem semelhanças e diferenças em seus modos de vida que vão além dos binarismos de gênero, identidade e território.
Foto: Divulgação
