O que o cinema produzido no Espírito Santo durante os anos de chumbo da Ditadura Militar tem a nos dizer sobre repressão e resistência? É essa pergunta que move Cinema, Poema e Gangrena, curta-metragem do diretor Gustavo Guilherme da Conceição, selecionado para a 15ª Mostra Foco Capixaba do 33º Festival de Cinema de Vitória. O documentário será exibido no dia 18 de agosto de 2026, no Sesc Glória, como parte da programação dedicada à produção local.

O projeto do filme nasceu de uma pesquisa mais ampla sobre a cinematografia capixaba, que ganhou novos contornos a partir do contexto político do país. “Cinema, Poema e Gangrena nasceu de um processo de pesquisa do cinema feito no Espírito Santo, pesquisa essa que começou com um projeto anterior, focado em traçar um panorama histórico e estético da nossa cinematografia, uma série chamada ‘Cartografias Poéticas para um (Im)Possível Cinema Capixaba’.”

O diretor conta que o momento político imediatamente posterior ao governo Bolsonaro foi o estopim para definir o recorte da produção. “Veio a ideia de um recorte temporal, pensando no cinema como ato de resistência, a fim de entender o que se produzia no estado no período da repressão, época que, apesar de toda censura e violência, foi muito rica para o cinema brasileiro.”

O grande desafio da produção, revela Gustavo, não foi técnico, mas sim arquivístico. A essência do filme dependia do encontro com as imagens produzidas naquele período. “Pode parecer repetitivo, mas o grosso da produção foi de fato a pesquisa e a busca pelos filmes. À princípio, existia uma lista de 12 longas-metragens feitos no Espírito Santo durante o período, mas a ideia era afunilar isso para que apenas três deles fossem utilizados no projeto.”

A montagem, portanto, era guiada pelo que as imagens tinham a dizer – ou a silenciar. “O processo criativo da montagem, tendo em vista o objetivo de ilustrar repressões características da Ditadura, dependia diretamente do encontro com esses filmes, com essas imagens, com o que elas tensionavam, diziam ou não diziam sobre o Brasil daquelas duas décadas de opressão.”Tudo passava pela qualidade das cópias, autorizações e acessos. “E só então, a partir dos filmes selecionados, o processo passou a ser de costura de imagens a fim de investigar aspectos dessa repressão dos anos de chumbo no Brasil.”

O diretor destaca um aspecto não exatamente inusitado, mas revelador: a dificuldade de acesso a obras produzidas há décadas: “Foi muito curioso perceber como algumas obras produzidas naquele período continuam inacessíveis de algum modo, e por vários motivos. Desde realizador que não quer nem pensar mais no filme até instituições responsáveis por guardar algumas dessas produções, que dificultam imensamente o acesso a eles.” Essa barreira, segundo ele, foi um choque e atrasou significativamente o cronograma. 

Para Gustavo, ser selecionado para o 33º FCV carrega um sentimento especial de pertencimento e reconhecimento. “O Festival de Vitória é uma segunda casa para muita gente do audiovisual capixaba. Realizadores, críticos, pesquisadores, curadores — toda uma cadeia de profissionais se mobiliza para acompanhar o festival. Então ser selecionado é sempre um momento de muita satisfação e felicidade.”

O diretor também compara a estreia deste filme com a de seu primeiro documentário, exibido no mesmo festival em 2019: “Quando exibi meu primeiro documentário eu tinha um grande receio de que não entendessem ou não gostassem do filme. Acho que agora a expectativa para compartilhar o filme com o público do Festival é muito mais leve, mais madura, porque parte da compreensão de que um filme é uma obra viva que se modifica, sempre, dependendo de quem assiste. Acho que, hoje, minha vontade é exatamente o inverso de sete anos atrás: eu quero saber como esse filme pulsa, como vão entender (ou não entender) o discurso que ele carrega.”

O 33° Festival de Cinema de Vitória conta com patrocínio da Vale e o copatrocínio do Banestes, através da Lei Rouanet, Ministério da Cultura, Governo Federal. Conta com o apoio da TV Gazeta, da Carla Buaiz Joias, do Canal Brasil, do Fórum dos Festivais, do Sheraton Vitória Hotel, da Conecta Acessibilidade, da TVE Espírito Santo e  do Canal Like. Conta também com o apoio cultural da Vol Service e a parceria do Sesc Espírito Santo. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte – IBCA.

33º Festival de Cinema de Vitória
15ª Mostra Foco Capixaba
Quando: 23 de julho de 2026, 19h
Local: Sesc Glória
Entrada Gratuita
Cinema, Poema e Gangrena
de Gustavo Guilherme da Conceição
(DOC, Cor, ES, 20’, 2026)
Classificação indicativa: 14 anos
Sinopse: “Cinema, Poema e Gangrena” é a versão integral de websérie homônima que se propõe a investigar aspectos da repressão através de produções cinematográficas realizadas no Espírito Santo durante o período da ditadura militar no Brasil.

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