O último debate entre realizadores do 32º Festival de Cinema de Vitória aconteceu na manhã desta quinta-feira (24), no Salão Penedo, do Hotel Senac Ilha do Boi. A conversa teve mediação do crítico Vitor Búrigo. Ele abriu o bate-papo destacando seu olhar sobre os filmes exibidos na quinta noite de Festival, que transforma a cidade de Vitória na capital do cinema brasileiro, e conta com patrocínio da Petrobras e patrocínio institucional do Instituto Cultural Vale e do Banestes, através da Lei de Incentivo à Cultura do Governo Federal. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte – IBCA.

“O que assisti foram protagonismos femininos na noite de ontem, destaque de mulheres na tela em cada produção. Nos curtas a gente vê essas mulheres em vários lugares, e o longa-metragem tem cinco mulheres na direção. Isso diz muito sobre a potência feminina na indústria”, disse Vitor Búrigo.

A conversa reuniu Alexandre Leco Wahrhaftig, responsável pela montagem de Aparição, de Camila Freitas. A diretora Mayra Costa, de Entre Corpos, o diretor Paulo Sena, de A Invenção do Orum, ambos da 29ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas. Também esteve presente no bate-papo, a diretora-geral de Insubmissas, Carol Benjamin, que foi exibido na 15ª Mostra Competitiva Nacional de Longas

Carol Benjamin iniciou sua fala contando sobre o processo de produção do filme. Insubmissas se divide em quatro partes: As Duas Noivas, dirigido por Tais Amordivino; Nada Somos, dirigido por Luh Maza; Tarde Demais, dirigido por Julia Katharine; e Nevrose, dirigido por Ana do Carmo. “Concebi o projeto e convidei as quatro diretoras para dirigir os curtas-metragens e fiz a curadoria de contos e diretoras. Supervisionei as filmagens, mas não dirigi a cena. Recebi o material e tentei construir uma unidade no longa”, disse ela.

“Ana do Carmo e Taís Amordivino são as mais jovens, das quatro convidadas, e são de Salvador. Julia Katharine e Luh Maza são de São Paulo, duas mulheres trans, e para mim era bom buscar diretoras estreantes. Eu queria esse encontro, esse olhar contemporâneo, com histórias escritas no século XIX. Existia, naquela época, uma questão ativa de apagamento de escritoras. Ao mesmo tempo também tem uma questão que é sobre tudo que a gente já mudou enquanto sociedade”, completou Benjamin. 

Na sequência, Alexandre Leco Wahrhaftig, responsável pela montagem de Aparição, contou como tudo começou. “Walda, uma senhora criada no Recôncavo Baiano, é avó materna da diretora Camila Freitas, e conta repetidamente sobre a primeira vez em que viu um caboclo. De família praticante das religiões espíritas, entre kardecista e umbanda, tem histórias que sempre surgem entre elas. Esse é o fio condutor”.

“Há anos a Camila já vinha filmando a avó dela. A gente fez várias exibições diferentes de duas telas em lugares diferentes. O filme é sobre duvidar do próprio olhar, se colocar no lugar das duas personagens femininas, então tem uma coisa de como se transmite os assuntos entre as mulheres da família, sem focar no assunto específico que é a relação com o invisível e a espiritualidade. A gente fez uma instalação antes do filme, com duas telas e um puff no meio. Mas o filme era o que buscávamos no projeto”.

A Invenção do Orum nasceu pela paixão do diretor Paulo Sena, na filmografia do espanhol Pedro Almodóvar. É a história da drag queen Jéssica, interpretada por Jéssica Telles, que conheceu o realizador quando trabalhava na antiga Boate Chica Chiclete, em Vila Velha. “O filme é sobre a gente também. Quando era um projeto ainda, era a Invenção do Céu. Durante a revisão do roteiro, sem saber se ia ter recurso, a gente estava numa produção de um filme chamado Macumba, e aí resolvi mudar o nome. Depois, escolhi que a protagonista fosse uma drag queen, e aí convidei a Jéssica. Fizemos uma preparação de elenco, ela nunca tinha atuado, mas tínhamos ali Suely Bispo”, revelou Sena.

A ideia de Entre Corpos surgiu quando a diretora Mayra Costa estava lendo O Mito de Sísifo, de Albert Camus, e começou a refletir sobre o cotidiano e as repetições dos ciclos. E a partir daí surgiu a parede da Vânia, protagonista do curta-metragem. “O processo foi longo. Eu atuo como assistente de câmera e eventualmente diretora de fotografia. Mas, sempre gostei de direção e roteiro. Considero que minha estreia como diretora veio um pouco tarde, mas o filme surgiu de uma leitura de ensaio filosófico sobre o cotidiano, de que nossa vida é banal, sem perspectiva pessimista. E aí o mural me interessou. Todas as mulheres aqui, em algum grau, nem que seja uma palavra, sofre de assédio. Todas passam por esse tipo de coisa. E a Vânia se subverte um pouquinho nesse lugar. Deixou de ser uma vítima e passou a fazer suas próprias vítimas”.

O 32° Festival de Cinema de Vitória conta com patrocínio da Petrobras e com patrocínio institucional do Instituto Cultural Vale e do Banestes, através da Lei de Incentivo à Cultura do Governo Federal. Conta com o apoio da TV Gazeta, da Rede Gazeta, da Carla Buaiz Jóias, do Canal Brasil e do Hotel Senac Ilha do Boi, da TVE e do Fórum dos Festivais. Conta também com parceria do Sesc Espírito Santo. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte – IBCA.

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