{"id":56306,"date":"2021-07-16T13:51:00","date_gmt":"2021-07-16T16:51:00","guid":{"rendered":"https:\/\/festivaldevitoria.com.br\/27fv\/?p=56306"},"modified":"2021-08-26T13:59:17","modified_gmt":"2021-08-26T16:59:17","slug":"itinerancia-feminina-texto-curatorial-de-saskia-sa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/festivaldevitoria.com.br\/27fv\/2021\/07\/16\/itinerancia-feminina-texto-curatorial-de-saskia-sa\/","title":{"rendered":"Itiner\u00e2ncia Feminina, Texto Curatorial de Saskia S\u00e1"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cTem de se estar \u00e0 altura das palavras que digo e que me dizem. E, sobretudo, tem de se fazer continuamente com que essas palavras destrocem e fa\u00e7am explodir as palavras preexistentes. Somente o combate das palavras ainda n\u00e3o ditas contra as palavras j\u00e1 ditas permite a ruptura do horizonte dado, permite que o sujeito se invente de outra maneira, que o eu seja outro.\u201d<sup>[1]<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensar e escrever sobre o cinema realizado por mulheres \u00e9 criar um territ\u00f3rio para que mundos ainda n\u00e3o vis\u00edveis sejam narrados. Toda a minha viv\u00eancia cineclubista me mostrou que o filme se faz no encontro onde afeta as vidas em uma pedagogia profana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mulheres cis ou trans, negras, ind\u00edgenas ou brancas, e de diversas express\u00f5es afetivas lutaram e ainda lutam muito para que seu olhar sobre o mundo rompa as fronteiras marcadas em um territ\u00f3rio, desde sempre ocupado majoritariamente por um tipo de homem branco, cis, h\u00e9tero, e habitante do lado norte do planeta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o fazemos filmes descoladas de quem somos nem de onde estamos, e o que somos vem sendo moldado por esse territ\u00f3rio audiovisual h\u00e1 mais de um s\u00e9culo. Somos afetadas pelo que lemos, vimos e ouvimos, assim como afetamos a quem nos l\u00ea, v\u00ea e ouve.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na minha inf\u00e2ncia, crescendo em plena ditadura em uma realidade de classe m\u00e9dia suburbana brasileira, cresci sem ver nenhum filme realizado por mulheres. Sem exce\u00e7\u00e3o, todos carregavam a l\u00f3gica masculina impregnada dos grandes est\u00fadios estadunidenses e das TVs brasileiras. Hoje, as meninas come\u00e7am a ver hist\u00f3rias narradas por outros olhares que n\u00e3o apenas os desses senhores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Novas perspectivas de realizadoras mulheres diversas t\u00eam nos permitido perceber o quanto estivemos limitadas neste enquadramento por olhares que n\u00e3o os nossos. As mulheres que fazem cinema falam com outras vozes, olham com outros olhares, enquadram outros planos e narram outras vidas e mundos poss\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir da minha pr\u00e1tica cineclubista junto \u00e0s Feministas de Quinta, percebi que n\u00e3o somos todas iguais como temos sido narradas. N\u00e3o somos esses retratos planos ao qual insistem em nos enquadrar. Mesmo entre mulheres n\u00e3o sofremos as mesmas dores nem vivemos as mesmas alegrias. Somos muito diferentes em nossas lutas. Ainda assim, nos encontramos em algum lugar dentro de uma estrutura que continua a tentar frear os movimentos dos nossos corpos, amorda\u00e7ar nossas palavras e apagar nossas imagens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde a primeira edi\u00e7\u00e3o da Mostra Mulheres no Cinema do Festival de Cinema de Vit\u00f3ria em 2016, nossa curadoria sempre se pautou pela necessidade de um olhar coletivo e diverso. J\u00e1 h\u00e1 alguns anos ela \u00e9 realizada por mim em conjunto <strong>H\u00e9gli Lot\u00e9rio<\/strong> e <strong>B\u00e1rbara Caz\u00e9<\/strong>. Todos os anos buscamos, encantadas, descobrir qual \u00e9 o olhar predominante da enxurrada de filmes inscritos. Cada leva de filmes traz quest\u00f5es caracter\u00edsticas e desenha uma paisagem nova, conduzindo-nos a selecionar o que ser\u00e1 exibido naquele ano. S\u00e3o os filmes que nos dizem quem s\u00e3o essas mulheres e que mundo elas est\u00e3o inventando naquele recorte de tempo e de territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na 1\u00aa edi\u00e7\u00e3o da Mostra, a viol\u00eancia deu o tom e estava presente em muitos filmes como um grito de \u201cbasta\u201d do olhar fetichizador masculino sobre a viol\u00eancia contra o corpo da mulher. O filme vencedor \u201cDentro de casa\u201d, de Yasmin Nolasco, traz uma protagonista negra interpretada por Cinthia Caetano que sofre <em>gaslighting <\/em>do companheiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o, outros temas se inseriram no desenho da Mostra. Quest\u00f5es como identidade racial, mem\u00f3ria e pertencimento tiveram relevo. O vencedor de 2017 foi o bel\u00edssimo \u201cRevejo\u201d de L\u00e1isa Freitas, onde a diretora investiga a sua pr\u00f3pria experi\u00eancia de negritude, dando origem a uma webs\u00e9rie com entrevistas de outras mulheres negras sobre o tema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2018, a diversidade se mostra nos filmes selecionados e nos tr\u00eas curtas premiados, focando quest\u00f5es t\u00e3o m\u00faltiplas quanto suas narrativas. O melhor filme pelo J\u00fari T\u00e9cnico foi \u201cMc Jess\u201d de Carla Villa-Lobos, sobre uma poeta negra e sapat\u00e3o. Receberam men\u00e7\u00f5es honrosas os filmes \u201cEm Busca de L\u00e9lia\u201d de Beatriz Vieirah, contando sobre sua busca pela ancestralidade inspirada por L\u00e9lia Gonzales, e \u201cFofa\u201d de Flora Pappalardo sobre ressignifica\u00e7\u00e3o de corpos gordos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">2019 foi marcado pela diversidade de v\u00e1rias regi\u00f5es do pa\u00eds. A curadoria buscou uma sele\u00e7\u00e3o em que os curtas-metragens olhassem para as mulheres em rela\u00e7\u00e3o com as suas comunidades. O curta-metragem vencedor do pr\u00eamio do j\u00fari t\u00e9cnico \u201cDeus te d\u00ea boa sorte\u201d de Jaqueline Farias, traz um recorte sobre a vida das mulheres parteiras da comunidade ind\u00edgena Pankaru. \u201cAfeto\u201d de Gabriela Gaia Meirelles e Tain\u00e1 Medina se escora na linguagem experimental para olhar a cidade e sua arquitetura no embate com os corpos femininos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2020 com uma pandemia que atravessou nossos corpos e nos imp\u00f4s o isolamento e o luto que ainda se perpetuam, a Mostra teve que ser remota e os filmes nos levaram a pensar que nossas lutas devem ser constantemente atualizadas. As quest\u00f5es apresentadas nos filmes mostram pautas t\u00e3o diversas quanto s\u00e3o as perspectivas das mulheres que as narram. \u201c\u00c2ngela\u201d de Mar\u00edlia Nogueira traz a solid\u00e3o das mulheres na terceira idade, mas tamb\u00e9m o al\u00edvio do encontro e da amizade entre mulheres. \u201cEsmalte Vermelho Sangue\u201d document\u00e1rio de Gabriela Altaf, apropria-se do discurso publicit\u00e1rio <em>kitsch<\/em> para tra\u00e7ar um paralelo entre a violenta modelagem dos corpos para sua adequa\u00e7\u00e3o aos padr\u00f5es de beleza e as viol\u00eancias cotidianas dos relacionamentos abusivos. O document\u00e1rio foi vencedor do pr\u00eamio de melhor filme pelo j\u00fari popular e tamb\u00e9m recebeu men\u00e7\u00e3o honrosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em uma par\u00e1frase \u00e0 cita\u00e7\u00e3o do in\u00edcio do texto, para o cinema em que acredito hoje, penso que as narrativas devem fazer continuamente com que suas imagens e sons destrocem e fa\u00e7am explodir as imagens e sons preexistentes. As hist\u00f3rias das e pelas mulheres reveladas nos filmes nas cinco edi\u00e7\u00f5es da Mostra Mulheres no Cinema do Festival de Cinema de Vit\u00f3ria, a partir da nossa curadoria coletiva, revelam-se como armas potentes de uma pedag\u00f3gica profana ao tornar poss\u00edvel novas escritas territoriais de n\u00f3s, mulheres no mundo. Enquanto realizadora e educadora sou tamb\u00e9m aprendiz de novos olhares criadores de mundos poss\u00edveis. Mais erros do que acertos, mas sei e afirmo que \u00e9 preciso manter olhos e ouvidos bem abertos e receptivos \u00e0s narrativas dos cinemas explosivos de todas essas mulheres, desnaturalizando as viol\u00eancias e os abusos de um sistema que tem virado as costas para a vida das mulheres h\u00e1 tempo demais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Queremos mais filmes feitos por mulheres, por mulheres negras, por mulheres ind\u00edgenas, por mulheres com defici\u00eancia, por mulheres trans, por mulheres l\u00e9sbicas, por todas as mulheres que se recusem a vestir a armadura do olhar que nos padroniza e tenta nos enquadrar em f\u00f4rmas r\u00edgidas de ser-estar no mundo. Outros corpos, outras dores, outras alegrias e outras formas de amar tamb\u00e9m s\u00e3o poss\u00edveis e reais e ainda sofrem opress\u00f5es t\u00e3o arcaicas num pa\u00eds que continua a exterminar as diferen\u00e7as, de fome, desesperan\u00e7a, peste e bala.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s mulheres podemos e queremos mostrar novos olhares, e quem sabe, apontar novos riscos nos mapas a serem trilhados com b\u00fassolas in\u00e9ditas que cont\u00e9m do ainda n\u00e3o vivido, ainda n\u00e3o dito, ainda n\u00e3o visto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesta sele\u00e7\u00e3o especial da Mostra Mulheres no Cinema trazemos oito filmes vencedores das suas cinco edi\u00e7\u00f5es: \u201cDentro de casa\u201d de Yasmin Nolasco, \u201cRevejo\u201d de L\u00e1isa Freitas, \u201cMc Jess\u201d de Carla Villa-Lobos, \u201cEm busca de L\u00e9lia\u201d de Beatriz Vieirah, \u201cFofa\u201d de Flora Pappalardo, \u201cDeus te d\u00ea boa sorte\u201d de Jaqueline Farias, \u201cAfeto\u201d de Gabriela Gaia Meirelles e Tain\u00e1 Medina e \u201cEsmalte Vermelho Sangue\u201d de Gabriela Altaf.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que em 2021 a Mostra Mulheres no Cinema do Festival de Cinema de Vit\u00f3ria nos traga muito mais filmes de mulheres e garanta o lugar especial de visibilidade para as hist\u00f3rias que podem nos ajudar a continuar a adiar infinitamente o fim de mundo que agora morde os calcanhares de todos, todes e todas n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Saskia S\u00e1 \u00e9 escritora, ilustradora, diretora e roteirista<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><sup>[1]<\/sup> LARROSA, Jorge. <strong>Pedagogia Profana: dan\u00e7as, piruetas e mascaradas.<\/strong> 4.ed. Belo Horizonte, 2006.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com realiza\u00e7\u00e3o da Galp\u00e3o Produ\u00e7\u00f5es Art\u00edsticas e Culturais e do Instituto Brasil de Cultura e Arte \u2013 IBCA, o projeto conta com recursos da Lei Aldir Blanc, via Edital de Sele\u00e7\u00e3o de Projetos e Concess\u00e3o de Pr\u00eamio \u201cCultura Digital\u201d \u2013 Apoio \u00e0 Produ\u00e7\u00e3o de Conte\u00fados Digitais no Estado do Esp\u00edrito Santo, por interm\u00e9dio da Secretaria de Estado da Cultura (Secult ES), direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Minist\u00e9rio do Turismo, Governo Federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FacebookTwitterWhatsAppCompartilhar<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde a primeira edi\u00e7\u00e3o da Mostra Mulheres no Cinema do Festival de Cinema de Vit\u00f3ria em 2016, nossa curadoria sempre se pautou pela necessidade de um olhar coletivo e diverso. J\u00e1 h\u00e1 alguns anos ela \u00e9 realizada por mim em conjunto H\u00e9gli Lot\u00e9rio e B\u00e1rbara Caz\u00e9<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":56307,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[93],"tags":[104,98,260,138,284],"class_list":["post-56306","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-fcv","tag-festival-de-cinema-de-vitoria","tag-itinerancia-feminina-mostra-mulheres-no-cinema","tag-mostra-mulheres-no-cinema","tag-texto-curatorial"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/festivaldevitoria.com.br\/27fv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56306","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/festivaldevitoria.com.br\/27fv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/festivaldevitoria.com.br\/27fv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/festivaldevitoria.com.br\/27fv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/festivaldevitoria.com.br\/27fv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56306"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/festivaldevitoria.com.br\/27fv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56306\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":56308,"href":"https:\/\/festivaldevitoria.com.br\/27fv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56306\/revisions\/56308"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/festivaldevitoria.com.br\/27fv\/wp-json\/wp\/v2\/media\/56307"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/festivaldevitoria.com.br\/27fv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56306"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/festivaldevitoria.com.br\/27fv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56306"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/festivaldevitoria.com.br\/27fv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56306"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}