O Festival de Cinema de Vitória oferece o #FCVemCasa para você poder ver ou rever os filmes que fizeram parte do Festival em 2019. A ação é uma opção para o isolamento social, que vivemos, devido a pandemia da Covid-19 no Brasil e no exterior. 

Os filmes selecionados para a estreante 1ª Mostra Do Outro Lado – Cinema Fantástico e de Horror são um mergulho no cinema de gênero produzido recentemente no audiovisual brasileiro. A curadoria foi montada pelo pesquisador de cinema Waldir Segundo.

O curador apresenta a seleção:

“Durante sua história, o cinema de horror cresceu e vive cercado de símbolos, metáforas e conceitos,

geralmente bem estabelecidos no decorrer de uma onda – desde os monstros da Universal, passando pelo slashers de mascarados dos anos 80 até chegar no millennial pós-horror atual. Um desses conceitos também envolvem a produção: a maioria dos filmes são realizados geralmente com verbas irrisórias, impactando diretamente no filme em si, na linguagem e nos modos de envolver o espectador. 

Apesar do horror e o cinema fantástico terem atingido no cinema hollywoodiano o status de blockbuster, no Brasil ainda vemos a luta para, além de conseguir realizar a produção, encarar talvez um desafio ainda maior: o da distribuição. Apesar de algumas distribuidoras já terem se atentado à força que esse cinema tem, ainda existe muito preconceito: da indústria do cinema independente, do circuito de festivais e também do público. O cinema fantástico e de horror por muitas vezes se vê num limbo: não é o “cool-independente-avant-garde” mas também não é o drama leve que as pessoas estão acostumadas a consumir em uma sala de cinema alternativo. Muitas produções ficam relegadas a festivais específicos do tema, então é necessário expandir ainda mais essas janelas de exibição.

Fiquei extremamente feliz quando o Festival de Cinema de Vitória cedeu essa janela de exibição para um gênero por tantas vezes esquecidos nos festivais Brasil afora, mesmo sendo, quantitativamente, um dos gêneros de maior produção no Brasil atualmente. 

Nos filmes desta safra, o horror não vem só de sustos fáceis com sons estridentes do cinema comercial, mas também da sensação da falta de liberdade que Francisco, um veterinário gay, tem em sua vida. Só pelo fato de existir, seu direito de ser encontra-se ameaçado e seus únicos companheiros são os gatos que alimenta pela noite. Para Minha Gata Mieze, de Wesley Gondim, apresenta o que talvez seja uma das cenas mais tensas do ano: um jantar que evolui em meio a violência e privações. Papa-Figo, de Alex Reis, por outro lado, exalta a liberdade da infância em uma reimaginação da história do “homem do saco”, mas deixa a pergunta: mesmo as crianças estariam livres da violência?

O fantástico também pode ser lúdico e sensível, como em Broto, dirigido por Antonio Teicher, aproximando o cinema ao realismo fantástico de forma sutil e divertida, transformando o estranhamento em um novo sentimento. Também tratando de transformações, Caranguejo Rei, de Enock Carvalho e Matheus Farias, poderia ser mais uns dos milhares filmes inspirados n’A Metamorfose, de Franz Kafka, mas seu sucesso vem justamente ao desconstruir essa obra, jogando

a fantasia no opressor ambiente corporativo, rompendo o clichê de utilizá-lo no escape cômico, e renovando o “conto da especulação imobiliária”, sob a forma de um body horror. E por falar em body horror, David Cronenberg ficaria orgulhoso com o trabalho de Isadora Cavalcanti para Carne Infinita, que apresenta a puberdade através de fluidos em excesso, criando uma crosta na pele como signo da despedida da infância.

Em uma pegada mais monster classic, uma homenagem aos monstros do começo de Hollywood:

Guará, de Fabrício Cordeiro e Luciano Evangelista, apresenta uma versão do cerrado para o lobisomem, criatura mística, mas bem enraizada na cultura brasileira, principalmente em lendas interioranas. O lobo do cerrado vem em busca de vingança, mas contra quem? 

O horror brasileiro se desponta pela originalidade em todos os processos, desde o conceito inicial (até porque nossa realidade é um fértil terreno para o gênero) até novos tipos de maquiagens inventadas justamente pela escassez de verbas. Nesta primeira edição da mostra Do Outro Lado, apresentamos esses seis filmes, vindos de diversas partes do país, que nos apontam nossos medos e frustrações, mas também algumas pontinhas de esperança, que no contexto atual são extremamente necessárias.”  

Este texto faz parte do catálogo do 26º Festival de Cinema de Vitória, que está disponível em https://issuu.com/vitoriacinevideo/docs/catalogo-26fcv

Boa sessão!

MELHOR FILME PELO JÚRI TÉCNICO – Caranguejo Rei, de Enock Carvalho e Matheus Farias

MENÇÃO HONROSA: Carne infinita, de Isadora Cavalcanti

1ª Mostra Do Outro Lado – Cinema Fantástico e de Horror

Classificação Indicativa 16 ANOS

Papa-Figo (Alex Reis, 16’, FIC, SP)

Uma brincadeira de crianças acaba se tornando um pesadelo, quando eles se propõem a desafiar uma lenda urbana.

Guará (Fabrício Cordeiro e Luciano Evangelista, 20’, FIC, GO)

No cerrado habitam lobos-guarás e bandeirantes

senha: qwer

Carne Infinita (Isadora Cavalcanti, 15’, FIC, RJ)

Alice joga em seu tablet quando sons estranhos na máquina de lavar interrompem o jogo. De sua imersão na realidade virtual, Alice passa a encarar uma realidade a princípio estranha ao seu corpo.

Acesse aqui.

senha: carne

*Broto, de Antonio Teicher não está disponível pois está com licença exclusiva no Canal Brasil;

**Caranguejo Rei, de Enock Carvalho e Matheus Farias: por questões contratuais com um canal de tv, não podem disponibilizar o filme na internet antes de 2021.

*** Para Minha Gata Mieze, de Wesley Gondim não está disponível pois a distribuição do filme está em negociação.