Com uma seleção de filmes, o 23º Festival e Cinema de Vitória traz uma seleção que expressa as diferentes estéticas e temáticas da atual produção de curta-metragem do Brasil. Acima, imagem do documentário “Das Águas que Passam”, de Diego Zon 


A janela mais tradicional do Festival de Cinema de Vitória, a Mostra Competitiva Nacional de Curtas completa 20 anos em 2016. Para celebrar  o público irá assistir a uma seleção do mais recente curta-metragem brasileiro: são 25 filmes nos gêneros ficção, documentário, animação e experimental. Estão representados nessa seleção o Distrito Federal e os estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco, Ceará, Paraíba, Maranhão e Rio Grande do Sul.


As sessões da 20ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas acontecerão nos próximos dias 15, 16, 17 e 18 de novembro, a partir das 19 horas, no Teatro Carlos Gomes, no Centro de Vitória-ES.


Segundo o Curador da 20ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas, Erly Vieira Jr., a seleção deste ano buscou capturar o que a produção nacional está trazendo de moderno. “Se, por um lado, é preciso compreender o que o conjunto da produção nacional vem dizendo nos últimos anos e perceber as atualizações desses discursos, por outro tem que se estar sempre atento aos dados novos que traduzem aquilo que está no ar, intuitivamente captado pelos cineastas, e que irão conduzir o curta-metragem nacional na conquista de certos territórios, a princípio inexplorados, mas com imenso potencial de se tornarem extremamente familiares em poucos anos”, comenta Erly.


Premiações

Este ano, os filmes selecionados para a 20ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas concorrem ao Troféu Vitória em sete categorias: Melhor Filme, Prêmio Especial do Júri, Melhor Direção, Melhor Roteiro, Melhor Contribuição Artística, Melhor Interpretação e Prêmio do Júri Popular.


O curta-metragem escolhido como Melhor Filme pelo Júri Oficial do 23º Festival de Cinema de Vitória ainda receberá o Prêmio CiaRio-Brasil no valor de R$ 7.000,00 (sete mil reais) em locação de equipamentos de iluminação, acessórios e maquinaria junto à empresa Moviecenter com validade de 1(um) ano. Prêmio Dot com 4 (quatro) horas de correção de cor no mov fechado; o Prêmio Mistika com encode de um DCP de até 15 minutos; e o Prêmio Cinecolor com 2(duas) horas de sonorização para HD-Cam ou HDSR (mídia não inclusa) e 8(oito) horas de mixagem para material de até 15 minutos.


Já o curta-metragem escolhido como Melhor Filme pelo Júri Popular também recebe o Prêmio CiaRio-Brasil ao melhor Filme Curta Metragem Nacional escolhido pelo no valor de R$ 7.000,00 (sete mil reais) em locação de equipamentos de iluminação, acessórios e maquinaria junto à empresa Naymar com validade de 1(um) ano.


Além disso, também concorrem ao Troféu Canal Brasil, que premiará o melhor curta com R$ 15 mil concedido por um júri específico formado por jornalistas e críticos de cinema. O filme escolhido durante o 23º Festival de Cinema de Vitória ainda terá a oportunidade de concorrer com filmes premiados em outras mostras e festivais ao Grande Prêmio Canal Brasil de Curtas-Metragens, no valor de R$50 mil.  


O anúncio das produções premiadas será feito no dia 19 de novembro, a partir das 21h, durante a Cerimônia de Encerramento do 23º Festival de Cinema de Vitória.


Os filmes da mostra

mostra-competitiva-de-curtas_kbelaEste ano os filmes que estão em competição, alguns fazem uma crítica direta à atualidade, enquanto outros transmitem uma mensagem através de uma narrativa mais próxima da fábula. É o caso do curta “Kbela”, de Yasmin Thayná, filme que propõe uma reflexão do presente ao convocar a ancestralidade africana para questionar todo o apagamento dos corpos das mulheres negras no Brasil. Com uma linguagem experimental e com uso da performance, esse curta parte de situações vivenciadas no cotidiano para criar imagens impactantes. Essa produção recebeu o Prêmio Especial do Júri na 16ª Goiana Mostra Curtas e foi escolhido como o Melhor Filme da Competitiva Nacional 2º MOV – Festival Internacional de Cinema Universitário de Cinema de Pernambuco.


O uso da performance também está presente na produção mineira Solon”, mais recente trabalho de Clarissa Campolina, que leva o espectador a contemplar a reinvenção do mundo, um novo big bang comandando por uma divindade feminina surgida de uma paisagem pós-apocalíptica. Esse curta já fez parte da seleção de outros festivais e recebeu o prêmio de Melhor Fotografia no 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.


Outra produção premiada na mostra de Brasília foi a ficção paulista “Demônia – Melodrama em 3 Atos”, de Cainan Baladez e Fernanda Chicolet, nesse caso como Melhor Montagem. Esse curta faz uso da ironia e da linguagem dos noticiários policiais da TV para criar uma narrativa insólita que se aproxima dos memes, forma de comunicação corriqueira nas redes sociais da internet.  


A ironia também é a tônica de outra ficção paulista: “A Moça que Dançou com o Diabo”, de João Paulo Miranda Maria. O roteiro dessa produção apresenta a inversão de uma lenda popular caipira que trata da libertação e da descoberta do corpo para além de uma moralidade neopentecostal. Esse curta recebeu o Prêmio do Público no 5º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba e o Prêmio Especial do Júri no 69º Festival de Cannes (França).


Outra produção que fez parte desse renomado festival francês foi a ficção pernambuca O delírio é a redenção dos aflitos”, do diretor estreante Felipe Fernandes. Esse curta apresenta uma contundente radiografia da crise social que vivemos e conta a história de uma moradora de um prédio-caixão condenado por risco de desabamento. Última residente a permanecer no edifício, ela precisa se mudar o quanto antes para garantir a segurança de sua família.  Também exibido no 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, levou os prêmios de Melhor Direção, Melhor Roteiro e Melhor Direção de Arte.


Outra produção que tem ganhado prêmios pelos festivais onde sido exibida é a ficção mineira “Estado Itinerante”, de Ana Carolina Soares. Tendo o universo das cobradoras de ônibus como tema, esse curta uma faz uso de uma mise-en-scène realista que ora soa minimalista, ora exuberante para falar dos novos encontros e partilhas que suas personagens estabelecem.


Um dos cinco representantes capixabas na 20º Mostra Competitiva Nacional de Curtas, o documentário “Impeachment”, de Diego de Jesus faz o resgate das imagens de arquivo de um controverso episódio da história política recente do Brasil e fornece novas chaves de leitura que para interpretar a crise institucional em que o país mergulhou nesses últimos meses.


Estreando em festivais, a ficção fluminense “Regeneração”, de Humberto Carrão, faz um resgate dos fantasmas de nosso passado escravocrata, que continuam a nos rondar, para confrontar a ar de farsa em torno do tal “Porto Maravilha” carioca.


Uma realização da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte (IBCA), o 23º Festival de Cinema de Vitória acontecerá entre os dias 14 e 19 de novembro, em Vitória-ES. Maior evento de cinema do Espírito Santo, o Festival conta com uma extensa programação de exibições, lançamentos, oficinas, debates, homenagens e premiações. Todas as atividades são abertas ao público.

 

23º Festival de Cinema de Vitória

20ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas

TERÇA, QUARTA, QUINTA E SEXTA-FEIRA (15 a 18 de novembro), a partir das 19h

Teatro Carlos Gomes – Centro de Vitória

ENTRADA FRANCA


TERÇA-FEIRA (15/11)

Demônia – Melodrama em 3 Atos (Ficção, 17’, SP), de Cainan Baladez e Fernanda Chicolet. Demônia é um ser endiabrado. Ou uma mulher má.

Balada para os Mortos (Ficção, 23’, MA/RS), de Lucas Sá. A cidade onde eu vivo é a cidade onde eu morro.

Melancia (Documentário, 7’, PE), de Lírio Ferreira. Um filme sensorial. A referência é a cidade do Recife, com sua crescente verticalização e sua outrora horizontalização – seu passado em confronto direto com o seu pseudofuturo. Seu desmanche. Seu fedor. O ritmo é inspirado na montagem nuclear do filme DI, de Glauber Rocha, sempre cortando no ápice. Em contraponto a imagens rápidas de eventos programados e/ou ocasionais, o artista Paulo Bruscky conduz as histórias como um cronista, atuando também como elemento desacelerador da montagem vertiginos.

Constelações (Ficção, 25’, MG), de Maurílio Martins. Dois estranhos percorrem juntos uma jornada noite adentro. Ela, que não fala português, vai em busca do passado. Ele, que não fala a língua dela, se afoga nas incertezas do futuro.

Das Águas que Passam (Documentário, 23’, ES), de Diego Zon. A imensidão do homem é um lugar suspenso no tempo, margeado por céu, terra, rio e mar.

O Delírio é a Redenção dos Aflitos (Ficção, 21’, PE’), de Felipe Fernandes. Raquel é moradora de um prédio-caixão condenado por risco de desabamento. Última residente a permanecer no edifício, ela precisa se mudar o quanto antes para garantir a segurança de sua família.


QUARTA-FEIRA (16/11)

Estado Itinerante (Ficção, 25’, MG), de Ana Carolina Soares. Vivi quer escapar de uma relação opressora. Em período de experiência como cobradora de ônibus, ela trabalha desejando não voltar para casa. A semana passa rápido, entre as paradas no ponto final e o itinerário os encontros com outras cobradoras fortalecem a mulher trabalhadora e seu desejo de fuga. Logo é final de semana e o centro de Belo Horizonte já não parece tão longe do bairro Boa Vista.

Antes da Encanteria (Documentário, 21’, CE), de Elena Meirelles, Gabriela Pessoa, Lívia de Paiva, Jorge Polo, Paulo Victor Soares. Um magote de viada truando no meio do mundo. Desde 2013, o coletivo Chá das Cinco realiza atividades culturais diversas em Icó, interior do Ceará. Engolidas pelo que fizeram, devoram caminhos rumo à Lua.

Som Guia (Ficção, 15’, RJ), de Felipe Rocha. Uma história sobre o encontro.  Entre as pessoas, ou entre o som e a imagem, ou entre eu e você.  A gente tenta juntar duas coisas na nossa cabeça e fica torcendo praquilo dar certo. Às vezes, alguma coisa acontece. Outras, não. E tudo bem.

Córrego Grande, 13 (Documentário, 13’, ES), de Carol Covre. Na rua Córrego Grande eu e meus avós conversamos sobre fotografias e um futuro museu.

À Parte do Inferno (Ficção, 23’, SP), de Raul Arthuso. O céu é só um disfarce azul do inferno.

Retrato de Carmen D. (Documentário, 22’, RJ), de Isabel Joffily. Carmem Dametto tem 72 anos e é psiquiatra. Atende os seus pacientes no consultório localizado no térreo de sua ampla casa, onde também vive Marcela, sua filha, que sempre nadou na piscina do jardim. Se antes a piscina tinha água azul clara, hoje ela encontra-se desativada e dominada por musgos.


QUINTA-FEIRA (17/11)

Impeachment (Documentário, 17’, ES), de Diego de Jesus. Brasília, 1999. Um pedido de Impedimento foi protocolado pela oposição. Ela acusa o Presidente Fernando Henrique Cardoso de ter cometido crime de responsabilidade. Deputados leais ao governo afinam seus argumentos, enquanto a oposição promete não ceder. Há ainda os deputados neutros, que pretendem não se comprometer muito.

Acho Bonito Quem Veste (Documentário, 9’, PB), de Marcelo Coutinho. A moda encontra os limites geográficos e a interferência da TV para atingir seu público.

Índios no Poder (Documentário, 21’, DF), de Rodrigo Arajeju. Mario Juruna, primeiro índio parlamentar na história do país, não consegue se reeleger para a Constituinte (1987/88). Sem representante no Congresso desde a redemocratização, as Nações Indígenas sofrem golpes da Bancada Ruralista aos seus direitos constitucionais. O cacique Ládio Veron, filho de liderança Kaiowa Guarani executada na luta pela terra, lança candidatura a deputado federal nas Eleições 2014, sob ameaças. Contra a PEC 215, seu slogan de campanha é “Terra, Vida, Justiça e Demarcação”.

Confidente (Experimental, RJ, 12’), de Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes. Este sou eu.

Kbela (Ficção, 21’, RJ), de Yasmin Thayná. Um olhar sensível sobre a experiência do racismo vivido cotidianamente por mulheres negras. A descoberta de uma força ancestral que emerge de seus cabelos crespos transcendendo o embranquecimento. Um exercício subjetivo de auto representação e empoderamento.

+1 Brasileiro (Ficção, 16’, min, ES), de Gustavo Moraes. Música e drama se encontram quando Torquato, um taxista viúvo, enfrenta toda a sorte de brutalidade nas ruas para criar sua filha a duras penas, expressando suas frustrações e sua perseverança através de canções.


SEXTA-FEIRA (19/11)

O Ex-Mágico (Animação, 11’, PE), de Olímpio Costa e Maurício Nunes. Com misteriosos poderes, o ex-mágico, sem passado e sem paciência com o mundo vai em busca de uma maneira de libertar-se das angústias que seus dons mágicos causaram em sua vida.

A Moça que Dançou com o Diabo (Ficção, 14’, SP), de João Paulo Miranda Maria. Numa sociedade conservadora e religiosa, uma garota vive sua rotina tentando encontrar o seu paraíso na terra. Buscando Helena (Documentário, 21’, RJ), de Roberto Berliner e Ana Amélia Macedo. Roberto e Ana Amélia acabaram de receber a notícia de que sua filha está a espera deles. Nós seguimos a extraordinária viagem deles até o juizado de menores pra trazer Helena pra casa.

Solon (Experimental, 16’, MG), de Clarissa Campolina. Solon dialoga com as artes visuais, a performance e a ficção científica. Uma fábula sobre o surgimento do mundo, apresentado a partir do encontro de uma paisagem devastada e uma criatura misteriosa. Solon habita o espaço extremamente árido e infértil. Aos poucos, ela se destaca da paisagem, aprende a se movimentar e explorar seu corpo. Verte água por suas extremidades e inicia sua missão de regar e nutrir a terra. A paisagem se altera e a própria personagem também. Nasce o mundo. Nasce a mulher.

Aspirina para Dor de Cabeça (Ficção, 15’, RJ), de Philippe Bastos. Envolvido pelo clima sombrio e impactante do último capítulo de uma radionovela, Alberto Limonta tenta descobrir os mistérios por trás da morte de sua esposa. Logo ele acabará descobrindo que a realidade pode ser mais cruel que a pior das dores de cabeça.

Regeneração (Ficção, 17’, RJ), de Humberto Carrão. Uma cidade que sempre lutou para ser outra coisa que não ela mesma.

Cartas para Eros (Documentário, 25’, ES), de Herbert Fieni. O documentário é uma busca por vestígios materiais da cena transformista e clubber dos anos 90 em Vitória. Cartografando em primeiras pessoas o devir afetivo que essas imagens-recordações desencadeiam na processualidade de montagem do filme, o autor se transforma em objeto, deixando-se imergir num constante fluxo de imagens, agrupadas libidinosamente sob o impulso de Eros em seu desejo de criar encontros e relações entre os homens.