Sessão inédita no Festival, a Mostra Mulheres no Cinema traz uma seleção de nove curtas dirigidos por mulheres (acima, imagem da ficção paranaense “Chanson D’Amour”, de Renata Prado)

 

Maior evento de audiovisual do Espírito Santo e uma das mais tradicionais mostras brasileiras de cinema, o Festival de Cinema de Vitória chega a sua 23ª edição com uma sessão de curtas-metragens realizados exclusivamente por mulheres: a Mostra Mulheres no Cinema, espaço que dará ênfase à participação e atuação feminina por detrás das câmeras. Fazem parte dessa sessão 9 curtas-metragens nos gêneros documentário e ficção de vindos de 5 estados diferentes que serão exibidos no dia 19 de novembro, às 14 horas, no Teatro Carlos Gomes, Centro de Vitória-ES (ver filmes no final da matéria).

 

Para a presente edição, 20% das produções inscritas são dirigidas por mulheres. O número representa bem a realidade nacional uma vez que, de acordo com a Agência Nacional do Cinema (Ancine), nos últimos 20 anos, apenas 19% dos filmes foram dirigidos exclusivamente por mulheres.

 

A Mostra Mulheres no Cinema conta com a curadoria da produtora e diretora Saskia Sá e com a parceria da produtora Horizonte Líquido. Cine-educadora com prática em Educação de nível superior e em oficinas de realização e de formação cineclubista, Sáskia Sá é mestre em Educação, possui textos publicados em revistas e livros da área, faz parte do Cineclube Feministas de Quinta, é a atual presidenta da Organização dos Cineclubes Capixabas (Occa) e atua como professora no curso de cinema da Ufes. São seus os curtas-metragens: Mundo Cão (2000), A Fuga (2007), Vento Sul (2013) e Exílio (2015). Também foram assistentes de Sáskia no trabalho de seleção dos filmes Tamyres Batista, Lara Toledo, Isabela Faria e Samira Neto.

 

Desconstruir estereótipos
Na história do Ocidente, a mulher, por muito tempo, desempenhou papéis subalternos e restritivos: dona de casa, mãe, esposa e objeto erótico-sexual. Pensando a atualidade, devemos considerar que, de maneira hegemônica, a representação da mulher continua a ser construída sobre as bases e reflexos desses estigmas. A Mostra Mulheres no Cinema busca promover o debate e a discussão sobre a construção de estereótipos do feminino e o papel social da mulher no mundo contemporâneo levando em consideração sua posição numa sociedade entendida como patriarcal e machista.

 

O inconsciente da sociedade patriarcal da qual fazemos parte foi estruturado, formal e substancialmente, a partir da estereotipia da mulher. Essa abordagem fica evidente na construção fílmica do cinema clássico hollywoodiano cuja premissa importante é a manipulação do prazer visual. Os filmes hollywoodianos, principalmente os produzidos entre 1930 e 1950, uniram e codificaram o prazer visual da mulher e o erótico dentro da linguagem, tomando a imagem da mulher como um objeto para o olhar do homem. Sempre colocada como objeto sexual, as mulheres foram e são a chave para o espetáculo erótico, já que representa o objeto de desejo masculino.

 

Hoje, no século XXI, há muitas mulheres produzindo e dirigindo diversos produtos audiovisuais, como curtas e longas-metragens de qualidade, o que falta é janela para se exibir e circular essas produções. “É somente através do protagonismo das mulheres que os estereótipos machistas podem ser desconstruídos no cinema, ou seja, a partir do olhar das próprias mulheres”, explica Larissa Delbone, produtora executiva do Festival de Vitória.

 

Uma realização da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte (IBCA), o 23º Festival de Cinema de Vitória acontecerá entre os dias 14 e 19 de novembro, em Vitória-ES.

 

MOSTRA MULHERES NO CINEMA
23º Festival de Cinema de Vitória
SÁBADO (19 de novembro), às 14 horas
Teatro Carlos Gomes – Centro de Vitória-ES

 

Autopsia, de Mariana Barreiros (Experimental, 7’, RJ) – O filme é uma inspeção de como a cultura e a mídia são responsáveis pela objetificação e desumanização da mulher e, portanto, da violência contra a mesma.

 

antonieta

Documentário catarinense “Antonieta”, de Flávia Person

Antonieta, de Flávia Person (Documentário, 15’, SC) – O documentário “Antonieta”, de Flávia Person, aborda Antonieta de Barros (1901-1952), mulher, negra, professora, cronista, feminista e em 1935 se tornou a primeira negra a assumir um mandato popular no país.

 

Chanson D’Amour, de Renata Prado (Ficção, 12’, PR) – Luísa vive drama de homofobia e sexismo.

 

CEP 05300, de Adria Meira e Lygia Pereira (Documentário, 21’, SP) – O documentário “CEP 05300” mostra a história de mulheres que cresceram na mesma rua e que em momentos diferentes da vida realizaram um aborto. Em conversas informais, elas relatam suas diferentes experiências com o processo, evidenciando a necessidade de expor o tema, bem como legalizar o procedimento.

 

Dentro de Casa, de Yasmin Nolasco (Ficção, 14’, ES) – Paula é uma mulher jovem e casada, que vive um relacionamento onde não possui voz. Seu marido, Eric, exerce um forte controle sobre ela, mascarado de preocupação. Aos poucos, Paula passa a perceber sinais de que sua relação não é saudável e começa a encarar o difícil processo de libertação. Ao atingir o seu limite e finalmente perceber o tipo de controle que Éric exerce sobre ela, Paula o expulsa de casa e destrói todas as coisas que a faz lembrar dele.

 

Irmã de Cena, de Gisele Bernardes (Documentário, 14’, ES) – Percurso em meio ao espaço urbano e noturno com os grupos de rap Preta Root’s e Melanina MC’s.

 

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Ficção pernambucana “Mulher(ES)Pelhos”, de Rayza Oliveira

Mulher(ES)Pelhos, de Rayza Oliveira (Ficção, 7’, PE) – Que enigmas meninas e mulheres escondem por detrás dos seus reflexos? Mulheres que a sociedade míope, distorce parecendo não enxergar ou enxergando pelo avesso, como elas se vêem? Dentre as inúmeras violências sofridas por mulheres, os casos de abusos físicos/sexuais, se revelam em altos índices em pesquisas e noticiários cotidianos. Como se desprender desses traumas? Conheça a história de várias mulheres, de vários nomes, multiplicada, refletida em uma só protagonista.

 

Os Muros Gritam o Silêncio, de Bresiana Saldanha e Danieli Borgoni (Experimental, 2’, ES) – Os muros gritam através da arte, a violência sofrida por muitas “Marias”, na qual várias guardam em silêncio os abusos sofridos. Gravado em Iphone.

 

Prepara!, de Muriel Alves (Documentário, 15’, RJ) – “Prepara!” é um documentário que aborda a inclusão de travestis, transexuais, transgêneros e outras pessoas em situação de vulnerabilidade social e preconceito de gênero nas redes de ensino superior.